Wednesday, October 20, 2010

Red Sea

Azul profundo é o que me vêm à mente
quando a sêca e a aridez começam a tomar conta.
O azul cobalto de um Mar chamado Vermelho
de um país onde o que prevalesce é o calor, a secura e a beleza velada.

Caminhe comigo cheio de incertezas,
com um pouco de medo sobre a vida,
suando muito pelos quase 50 graus e embebido pela areia cansada do Sahara.
Vá se aproximando da falésia, pisando curiosamente no chão dourado.

À beira do precipício olhe e observe
as águas salgadas daquele mar de oásis.
Desça comigo pelas fendas na encosta,
tropeços e esbarrões ribanceira abaixo.

Lá embaixo seguindo por um deck de madeira
que leva a uns 10 metros da orla
veja também os peixes coloridos nadando calmamente,
e sinta que está sendo controlado
por uma imensurável vontade de mergulhar.
Agora feche os olhos e salte.

Abro os olhos e vejo o azul que me envolveu a alma,
às vezes misturado a um verde lindo, profundo,
me percebo parte daquele oceano milenar,
Junto as mãos num formato de lança
e me lanço mais ao fundo.
Olho em volta e os peixes me acompanham,
vermelhos, verdes-fluorescentes, alaranjados, amarelos, pinks e listados.
Lindos eles nadam ao meu lado até que de repente
lá longe uma arraia surge
me deixando mais grato ainda por aquela experiência.

A vontade era de não sair mais dalí.
Foi uma entrega total, onde todo o azul daquele mar
me envolvia perfeitamente, me dava retorno
com a infinita beleza de cores, me fazia pleno
de sensações fantásticas, de felicidade e fantasia.
O medo passara, as incertezas se transformaram em fatos consumados.
Não sabia mais o que era sonho, se era mar, se era céu,
se era real toda aquela imersão de sentimentos.

Com o corpo molhado sobe ao deck, retorne à orla
e junto comigo, sincronizadamente, olhemos mais uma vez
à tudo aquilo que, por minutos, foi parte de você, de mim.
Sente o mesmo que eu sinto?

Aquele é o mar mais maravilhoso que admirei,
este foi o mergulho mais perfeito e completo que fiz.
E o azul, ah o azul, às vezes misturado ao verde, profundos;
com toda a certeza é o azul mais belo que pude tocar.

Hoje, a milhares de kilômetros de distância de lá,
pude novamente submergir na imaginação.
Porque conheci os olhos mais belos que já vi um dia.
Olhos que me fizeram afundar novamente num azul
de sensações profundas, tornando este alguém o
próprio Mar Vermelho do Egito, a própria água
tão necessária que me envolveu aquele dia.

Seus olhos são réplica do que mais belo vivi na vida!

Juliano Hollivier - São Paulo






Thursday, September 02, 2010

Música Para Loucos

Picture by Myself

Não sei do quê sinto saudade
mas a sinto forte
não sei se é algo ou alguém
mas ela está aqui
não do meu lado ou à minha frente
mas dentro de mim
como se quisesse me ocupar
me tomar, me substituir ou me refazer
outro, outra, noutro ou noutra
vida, homem, situação, pessoa, dúvida.
Ouço No Bravery, James Blunt
talvez isto me incite à melancolia
ou talvez isto me transporte
à algo a que sou dado:
questionamentos intermináveis sobre o por quê das coisas,
introspecções arriscadas ao coração, ao amor, ao fim das viagens
a um incômodo despertado pelo som de uma música,
a um masoquismo moral, intelectual, sentimental,
à masturbação mental que me acomete
sempre que me pego só.
A sensação é a mesma que tive
quando estava no Cairo, nas pirâmides, e me vi sozinho,
derrotado e com saudades de casa.
Não sei por quê mas a sinto forte
não sei como nem onde
ela se fez, ou se a fizeram para mim
mas parece coisa de outra vida
de outro plano ou providência.
Não se explica, não se prova
mas esta porra está aqui
dentro de mim
me ocupando, tomando meu corpo
me substituindo, desfigurando, causando
uma torrente de água que cai dos olhos.
Sim, por que simplesmente dizer que me faz chorar
seria pouco, seria falso e superficial.
Ouço, ciclicamente, os melismas da viola.
Vão abrindo portas dentro de mim que não consigo parar.
Parece um vento, um arrebatamento ou afastamento de mim mesmo,
Parece uma droga que leva a um grau de alucinação tão grande
que poderia passar toda a madrugada aqui assim,
deitado, olhando a noite pela sacada
e ouvindo essa viola, essa voz, essa oração pra dor de não sei o quê.
A maluquisse é tanta que quando olho pra TV
vendo esses olhos profundamente azuis do cantor,
é um show em DVD,
vendo o quanto ele se entrega ao que faz
que sinto que faria qualquer coisa 
pela sua companhia numa só noite cantando para mim.
Tem um passarinho doido lá fora,
também cantando enlouquecido,
meu contato com a realidade.
Coincidência?
Carência santificada é essa, meu Deus,
onde está a resposta disso tudo?
mas assim como na música
não vejo nenhuma bravura
diante de tanta volta ao ponto de partida
diante de tanta violência comigo mesmo.
"I see no bravery, no bravery in your eyes anymore,
Only sadness".

Juliano Hollivier - São Paulo









Sunday, August 29, 2010

O Vermelho da Carne

Picture by Elaine Ianicelli
Povo sofrido, com cheiro, odor.
Arábia bendita em seus antepassados
onde mulheres são cães maltratados
ou bonecas enfeitadas com ouro
exclusivas e escondidas no horror.

Progresso inverso, cultura enraizada
no acerto ou no erro
onde um tem tudo e muitos têm nada
na pele escorre o suor e a cor do desespero.

A luz de um sol muito forte
arrebata a testa, os ante-braços, as mãos.
Judia as rugas de olhos que só vêem
e desejam não desejar a sorte e a morte.

Nossa liberdade vai de encontro
aos coros de um Alcorão interpretado
por homens crentes em Deus,
em renúncias e retribuições divinas.

O que faço aqui seria motivo
de morte por apedrejamento talvez, 
por isso rezo todos os dias por ter nascido livre,
solto para poder escolher quem ser.

Porém vi no Oriente um médio olhar
de uma esposa toda encoberta
que andava logo atrás de seu amo
acorrentada por ouro branco.

Quando passou senti vontade de despí-la toda,
arrancar aquela burca a tapas,
enfocar o senhor que a puxava
dono de um orgulho e prepotência tosca.

Seu corpo com certeza brilhava
debaixo daquele tecido negro
ainda se podia ver em seus passos 
o Prada nos sapatos
os brilhantes nos dedos
porém somente seu dono a desfrutava.

Diante de tanta diferença
me ocorreu a primeira vontade em me despir,
mostrar ao homem como viemos e como voltamos
o quanto somos belos sem nada,
frágeis e fortes nesta crença.

Em minha cabeça, naquele instante,
só me restaram o corpo, a arte,
a raiva, a luz que brilhava abundante,
o negro e o vermelho da carne.

Juliano Hollivier - São Paulo

Wednesday, August 25, 2010

Auto-Exposição

Picture by Elaine Ianicelli

Afirmar-se como indivíduo notável
digno de reconhecimento, elogios
estar na vitrine da curiosidade alheia
ou nos pensamentos de alguém que masturba as vontades ditas feias.

Despir-se na rua de uma amargura rasa
exibindo bunda, sexo e peitos
conseguir olhares cheios de desejos
ganhar atenção com manejos fáceis, em brasa. 

Podem ser estas as intenções
colocar-se à vista de olhos julgadores
buscar fama de forma rápida, sem razões
galgar suspiros, amores e alguns valores.

Se olhar um pouco mais adentro
pode encontrar um motivo em que se reconheça
que instigue a coragem dormida
que ilustre a nobreza em epicentro
algo de que jamais se esqueça.

Verá em mim todas e mais essas suposições
um ou mil motivos nada velados
beleza e horror que coexistem na pele
na alma, na pose e coragem tonificados.

Verá a superfície se só isso quiser
Verá Arte se assim puder
Verá Poesia se preparado estiver
e então poético se tornará
todo e qualquer motivo
que  me leva expor a alma, o medo,
o tesão,  o fetiche, a repulsa,
ou a mensagem mais importante
entre todas elas:
ser eu mesmo sem esconderijos
a menos que estes me dêem
algum prazer!


Juliano Hollivier - São Paulo

Picture by Elaine Ianicelli

Thursday, August 19, 2010

Amor


Picture by Elaine Ianicelli


Hoje vou tentar falar de amor
de todos que passarem pelos meus dedos
Hoje vou tentar fazer o amor valer
toda a pena do mundo, todos os riscos imundos
que corremos quando abrimos nosso coração a alguém.

Digo o amor que evolui da paixão
de uma sensação inexplicável de respiração contida
de um gelo na barriga só quando se pensa nele
de um milhão de vezes que se materializa 
na mente, na frente, na gente.

Refiro-me à exceção repetida
tantas e tantas vezes que nos faz crer
que somos realmente loucos querendo amar assim
querendo se jogar de tão alto andar
que é o tal "amar e ser amado".

Me arrisco falar desse edifício
de paredes densas de concreto queimado
com toques de flores jogadas pelo vento
transformando o austero em belo
o vício em bálsamo
o grão em ceia e o beijo em sexo.

Digo o sonho de viver um filme
com ele ou com ela de todos os sonhos
cena a cena de um romance louco
com brigas, desentendimentos e fazeres de pases
com dias vividos desedificantemente em mares
de volúpia, de alegria, de tesão.

Falo também do amor de amigo
que começa baixinho, numa coincidência talvez
num oi e numa ajuda recíproca
que cresce com o tempo e com as trocas
que amadurece na sintonia, no reconhecimento de coisas iguais
que dá fruto à primeira oportunidade de boa ação
Falo deste amor registrado na fotografia
num olhar, em dois olhares, num toque com a mão direita no peito
num apoio com a mão esquerda do outro 
no ombro nú, no pêlo livre de preconceito
na luz que brilha no seio, no colo
falo também do amor ejaculado no palco
de um trabalho feito a dois, para os dois, 
da beleza tão imensamente maravilhosa
de uma boca sobrepujada por olhos que dizem tudo
mas que o fazem duvidar se realmente existem
por que são lindos demais,
falo dos fios de cabelo, negros, curtos
que fazem qualquer ser humano se perder
na brisa da loucura, no devaneio de querer ter.
Falo deste amor que é somente
o meu amor de amigo.

Texto inspirado e dedicado à atriz e amiga Cris Ferrantini.

Juliano Hollivier - São Paulo

Wednesday, August 11, 2010

Reconhecer-se

Picture by Elaine Ianicelli

Olhar para o outro e ver somente ao outro
Olhar para si mesmo e ver apenas a si próprio
É o começo de uma guerra, de um colapso, de um absurdo qualquer.
Não doar seu sangue, sua voz, seu ouvido
Não dar sua alma, sua vida, sua vontade
pelo outro, para o outro, com o outro.
É sem dúvida o alimento para o egoísmo, para a insanidade, para o caos.
Agora quem é que quer se doar, se dar e compartilhar
num mundo onde todos se comem, se fodem e se pisam?,
onde uns renegam a merda que comem, o buraco onde evacuam
seus podres, suas mentiras, seus medos e imperfeições
e no instante em que podem jogam tudo para o alto
se vangloriando do passo dado sem reconhecimento algum.
Aprende-se ser um indivíduo indizivelmente individualista
no dia-a-dia, no corre-corre, no pega-pa-capá da inocência,
nas empresas e escolas que passamos.
Se esquece que em muitos momentos o outro é
necessário, insubstituível, particularmente desejável.
Observar-se e ser observado.
Início de uma trégua, de uma paz interna.
Dar seu peito, seu ombro, sua gana
é se permitir ver e enxergar o outro.
Me vejo no praticável em pé
ou nos metatarsos apoiado,
olho depois no canson riscado a carvão, pastel ou a lápiz de cor.
Me reconheço de outra forma, de um outro jeito,
através do olho do artista me vejo outro,
me vejo novo, me vejo louco, me vejo sempre.
Vejo o que todos vêem e o que poucos entendem
Vejo o que não gostaria ver em mim
mas que por ser parte de todos alí está para ser visto,
não dependendo da minha vontade.
No desenho ou no bronze fundido
reconheço meus sentimentos, meus prazeres,
descubro novos sonhos, novas curvas, novos ângulos de mim mesmo.
Às vezes a princípio nao vejo nada de mim neles,
poucos os casos, mas existem, e servem para o pensamento
como se questionassem minha pose, minha capacidade de expressar-me
E num relance nestes mesmos casos, me vejo criança
me vejo projeto de gente, me vejo embrião de um homem cheio
de coisas pra fazer, querer, conquistar, descobrir, crescer.
Trabalhos feitos com a expressão do meu corpo
são sempre conjunto de resultados mútos entre modelo e artista
são sempre fruto de auto-reconhecimento
de todos que se doam, partilham e oferecem 
sua alma para o outro, seus olhos para o outro,
E com o outro, vive para o destrinchar da
individualidade, do egoísmo, do individualismo 
naturais sim do ser humano, mas também necessários de evolução,
de reconhecimento e aprimoramento.
Olhar para o outro e ver também a si mesmo.
Olhar para si próprio e se ver outro,
se ver diferente, melhor, inerente.
Modelo de uma transfiguração,
desenhista, escultor, artista e eu
somos um só e seu trabalho espelho
que reflete a todos nós num reconhecer-se!.

Juliano Hollivier - São Paulo

Tuesday, August 03, 2010

Ser Um Modelo Vivo

Para quê? Será mesmo tão necessário?
Conhecer tão bem a si mesmo pode levá-lo a um mundo de perguntas respondidas, e isso acaba sendo chato. Você se prepara racionalmente para as coisas da vida e penso que talvez isso possa tirar a vivência real e intensa dos momentos.
Quando em horas e mais horas imóvel na mesma posição sou "objeto" de estudo. Analisado minuciosamente centímetro por centímetro, dos pés à cabeça. Uma análise feita pelo artista do meu corpo no espaço e de minhas interferências neste espaço. Sendo assim, o que penso, o que sinto, como vejo e como me expresso em determinada pose, reflete no que o artista capta e registra em seu trabalho. Permanecer imóvel e nú diante de pessoas é sem dúvida um exercício de auto-conhecimento. Momentos longos onde me vejo fora de mim. Como se saísse do próprio corpo, sentasse a alguns metros de distância e pusesse a me observar. Começo vendo os pés, onde estão, como estão, se estão limpos ou se não me esqueci de cortar as unhas, se estão contraídos ou relaxados. Vejo os vasos dilatados, veias saltadas que saem nas laterais, olho para eles e penso que são a base de tudo. Isso me faz refletir se estou "plantado" por inteiro no chão e se não estou, no mesmo momento, digo a mim mesmo: " - Trate de se apoiar direito na próxima pose Juliano". O que aconteceria se a pose fosse outra, onde os pés estivessesm no ar? É óbvio que a raíz seria outra, mas o sentimento e o pensamento e fisiologia do corpo seriam os mesmos.
Alí sentado me olhando vejo os olhos. Para onde olham, o que vêem, se estão brilhando, se estão cansados ou foscos. Se piscam muito tento contar quantas vezes piscam até ouvir que a pose acabou. Observo o quanto consigo manter o olhar vivo no ponto escolhido e vejo o quanto esse olhar diz tudo: como penso, como sinto, o que quero e para onde vou na próxima pose. Num instante penso se os artistas percebem isso; sim ou não isso não me incomoda nem interfere nos meus pensamentos e poses. Se vejo meus olhos foscos, interiorizados, automaticamente começo a pensar no "por quê" estou assim, e isso me faz viajar num processo de interiorização, em perguntas que normalmente não seriam respondidas mas alí, tendo o tempo como aliado, consigo respondê-las a quase todas. Mas é claro que não se deve pensar que tenho tudo resolvido em mim, ou que não sofro com as dúvidas naturais de alguém com 32 anos. Quem dera! Se vejo meus olhos brilhando, expressando felicidade, transmito através de todo meu corpo a energia e a vibração de uma felicidade que contagia, tenho certeza, a todos. A felicidade também é facilmente desenhável.
Da observação dos olhos abro o plano para o corpo todo. Vejo se a estética dele condiz com o que pretendo expressar na pose. Se a posição dos braços, mãos, tronco, cabeça estão na mesma vibração do que propuz quando "caí" naquela posição. Os segundos que separam as poses são suficientes para a proposição da próxima pose. Não faço, geralmente, um roteiro e mesmo que o fizesse o "aqui-agora" é que determina o trabalho e a execução dele. Portanto, lido quase que totalmente com o improviso do momento, com a ação-reação do movimento, com a resposta do corpo às proposições da mente. Interessante o termo que ouvi quando comecei a fazer este trabalho e que passei a usá-lo: o "cair na pose". Você literalmente cai nela, pois no momento em que o corpo em segundos materializa a intenção que foi primeiramente sentida, depois pensada racionalmente e então tudo isso refletido num movimento que se congela durante alguns minutos, existe um coeficiente de idealização versus realização que tem que ser considerado. È difícil calculá-lo com precisão e uma vez que você "cai" errado na pose, ou seja, quando se erra neste cálculo, você terá de suportar a dor durante o tempo pré-estabelecido. E como é difícil e sofrido esse erro. Nele você aprende a lidar com o insuportável, com seus limites de resistência física, resistência psicológica e de resistência à dor. Beiramos muitas vezes ao masoquismo por que para lidar com a dor um grande aliado é o prazer. Então é pelo prazer, mórbido às vezes, que conseguimos suportar a dor de uma pose "mal caída". E isso vicia, acreditem. Então na contramão deste masoquismo todo é preciso também um exercício mental para não nos tornarmos masoquistas de carteirinha. Uma pose errada é sempre um degrau para o auto-conhecimento. Você sente, pensa, calcula, cai na pose, vê que errou, começa a contagem regressiva para a dor e para o sofrimento, vive esta dor por minutos (que variam de 2 a 40 minutos muitas vezes), se questiona onde é que errou, lida com a frustação de não poder corrigir este erro e ainda com a tensão que na maioria das vezes não deve tranparecer para o artista. Particularmente tento usar tudo isso a meu favor, mesmo a sensação do desespero da dor que reflete no meu olhar, acabo utilizando como proposição. Acaba sendo uma proposição consequente de expressão, mas é sempre muito interessante ver os resultados nos desenhos. Às vezes uma pose que era para ser simples, serena, expressar tranquilidade e repouso se transforma numa verdadeira expressão do horror, o que para bons artistas torna-se um prato cheio!
Todos sempre perguntam no que penso enquanto estou alí imóvel e nú. Bom, difícil responder com precisão mas penso em tudo o que todos pensam e principalmente não pensam no dia-a-dia. Além das coisas pertinentes às proposições das poses, penso em Deus, se minha fé Nele e em mim mesmo aumentou ou diminuiu, na casa que deixei desarrumada, na louça que terei de lavar, nos problemas que preciso resolver, lembro de coisas que esqueci de fazer, penso na família, nas ligações que não tive tempo de realizar, nas contas que tenho que pagar, nos sonhos que foram realizados e nos novos sonhos que procuro fomentar, nas paixões que se transformaram em amizades ou no amor que sempre procuro, penso na roupa que quero comprar, no filme que quero ver, decoro meus textos de teatro mentalmente, escrevo mentalmente minhas poesias, visualizo espetáculos completos que ainda quero fazer, monto peças e personagens todos em pensamento, penso em sexo, em posições não só boas para o desenho mas é claro, também boas para uma boa transa, penso inúmeras vezes no que sou hoje e comparo com o que queria ser quando criança, lembro que no dia seguinte terei de ir ao médico, ou que no outro dia poderei realizar meu sonho de fazer cinema, penso nas brigas que já tive com amores passados, no ciúme que aprendi a controlar ou no "vai tomar no cú" que tinha de ter dito e não disse ou no "puta-que-o-pariu" que direi mais tarde, penso também no quanto sou feliz sendo quem sou, na gratidão que sinto pelos pais e irmãos que tenho, penso também de repente no quanto um artista ou outro é lindo, e no quanto um artista ou outro é bom, jamais penso fazer amor com nenhum deles, pelo menos no exercício do trabalho, penso na árvore que ficaria linda num bonsai, nunca penso em ereção, e se por acaso este pensamento começa a querer aparecer lembro de minha avó no banheiro ou do dia em que vomitei sem querer na cara de um amigo. Enfim, são infinitos pensamentos no exercício desta profissão!
Já o exercício do auto-conhecimento requer observação e concentração, e o trabalho do modelo vivo necessita do silêncio, ou pelo menos de um ambiente propício à meditação. Quaisquer ruídos e conversas paralelas dificultam a boa realização do trabalho, consequentemente num bom resultado do exercício de conhecer a si próprio. Essa concentração se inicia desde o momento precedente ao trabalho, com alongamentos e exercícios de uma respiração tranquila e vai até o final da sessão, normalmente de duas horas. E no meu caso, pode ser auxiliada com música, que normalmente proponho em meus trabalhos. E é nos concentrando que começamos a entender melhor quem somos e por quê e para quê estamos aqui. A concentração é ferramenta necessária para a Arte e exercitá-la me ajuda muito na vida profissional e particular. Para o ator a concentração é primordial e depois que comecei a trabalhar como modelo vivo, há quatro anos, senti que melhorei como ator. Me sinto mais maduro em cena, mais inteiro nas personagens, mais calmo e verdadeiro. E na vida e na arte também me vejo mais centrado. Claro que tudo isso é muito bom e maravilhoso, mas a evolução é uma escada sem fim e quanto mais a alimentamos mais precisamos evoluir e é sempre um movimento de mão única, ou seja, o conhecimento é primo. Uma vez que você sabe realmente sobre algo não há como deixar de saber; pode-se esquecer sim, mas o registro já está em seu cérebro, na memória de sua pele, de seu corpo e para resgatá-la basta acessá-la. Isso também é maravilhoso, mas o que quero levantar aqui é o fato de que todo este auto-conhecimento muitas vezes te faz não optar viver coisas por já saber no que vão dar. E aí é que mora o erro. Porque cada momento, cada situação vivida, são diferentes um do outro. Acredito que não devemos nunca generalizar os resultados do que aprendemos. Como o "cair nas poses" que narrei atrás. Portanto, neste caso o auto-conhecimento não é sempre necessário para que possamos nos permitir viver. Acho que até o auto-conhecimento precisa ser equilibrado e esse equilíbrio talvez se dê com a idade, à medida que envelhecemos.
Ser um modelo vivo não é apenas despir-se e se colocar imóvel numa posição, antes de tudo é permitir-se envelhecer de forma equilibrada, expondo não apenas seu sexo e seu corpo, belo, atlético, perfeito ou feio, obeso e imperfeito, mas também expondo seus erros, suas buscas, seu interno belo e terrível, suas incertezas e certezas, seu lado mais obscuro e velado pela moral. Assim, por isso, nunca ficamos "pelados" mas sim ficamos nús, sem as roupas e vestimentas da sociedade, da moral, dos exemplos copiados, das referências tomadas como próprias porém nunca questionadas.  Estar nú diante de muitos é estar propício a uma evolução sempre infinita, baseada na coragem necessária para se viver a vida de forma feliz!

Juliano Hollivier - São Paulo

Tuesday, July 27, 2010

No Ônibus

"Boa tarde caros passageiros,


Sou Juliano Hollivier, 32 anos, podem me chamar por Beggar ou Mendicante, ou Pedinte, como preferirem. Poderia estender minha apresentação dizendo o que sou ou fui, ou o que fazia. Mas só vou me ater ao que faço agora: peço ajuda, para mim e para os outros. O dinheiro que conseguir aqui vou usar para comer num restaurante honesto, pagar meu condomínio, luz, mercado, quem sabe também pagar um curso de interpretação com um diretor teatral russo pra melhorar minha atuação aqui, preciso também pagar a conta do meu celular e comprar a ração cara do meu filhote, um Lhasa Apso lindo, de pêlo longo e escovado. Vou comprar também, claro, alguns comprimidos de êxtase ou maconha, não que eu fume, mas nunca se sabe quando vamos precisar né? Não trabalho mais em empresas chatas, para chefes insuportáveis, negligentes e desumanos, sob regras e normas transformadas por eles mesmos em leis constitucionais. Por isso hoje vocês podem apreciar minha honestidade, coisa rara no mundo em que vivemos! E como tenho feito todos os dias desde que decidi fazer isso, separo 20% do que ganho aqui e entrego, não pra igreja, mas para a Casa dos Desabrigados, uma ONG do Vale do Anhamgabaú que ajuda quem não tem teto. Podem conferir, eu indico!
Também poderia argumentar aqui sobre meus problemas pessoais, de saúde e etc, motivos que me levaram a fazer isso, as dificuldades e tudo mais. Mas isso todos nós temos, não é mesmo? Com certeza não é a melhor argumentação e sim a mais chata. Quando começar a falar dos 12 filhos que tenho que alimentar em casa vocês já torcem o nariz, aumentam o volume do MP3 e acabam não me dando nada. Todos temos problemas mas a única diferença entre mim e vocês é que hoje, mais uma vez, eu tive coragem de pedir ajuda dizendo apenas a verdade. Tenho ganhado mais assim que no meu último emprego registrado em carteira. Pensem nisso. Quem quiser então me passar R$ 10,00 ou mais por favor, agradeceria muito se fosse em notas trocadas.


Muito obrigado."

(O Pedinte - após uma corrida de ônibus entre a Av. Paulista e o Pq. Dom Pedro, onde havia um rapaz muito jovem, extremamente lindo, loiro, de olhos azuis, corpo atlético perfeito, pedindo dinheiro com um discurso triste de novela das oito. Meu Deus, como era lindo o menino e como dava pena e tesão a situação. O que significa tudo isso?)

Juliano Hollivier - Sao Paulo

Friday, June 18, 2010

Solitaria

É duro ter que se deparar com a realidade,
que geralmente soca a cabeça às sextas-feiras,
talvez por que seja um dia em que todos
estão juntos ou separados ao mesmo tempo
e quando chega a noite, aquela vontade de partilhar surge
debruçando em nós todas as vontades que não realizamos
todos os caralhos de coisas que não temos mas queremos
e então escorre no dorso o filete quente da incoerência
do que os outros fazem com o que quero para mim
do que os outros querem pra si com o que faço enfim.
Simples seria não querer
fácil provavelmente é simplesmente não sentir
uma companhia na cama e na mesa
de jantar, de bar,
na sacada, na sala.
O papo que não acontece ou a briga que sequer grita
em contrapartida à conversa sobre estética da arte
depois de uma gozada maravilhosamente quente
no quarto que meticulosamente fica
repleto de sabor, de amor, de uma névoa de calor
traduzida no suor das costas, da coxa, do peito
resumida porém não diminuída
no olhar de gato egípcio, delineado por um "S"
puxado num rosto belo e perfeito.
E esse molhado que cheira forte
fica agora lá, na cama desarrumada de dias atrás
mostrando que nexta sexta-feira de hoje
é real estar sozinho
sem ninguém
com meu notebook,
meu cão amigo e meus paradoxos,
minhas frases mal escritas
e minhas vontades malditas.

Juliano Hollivier - São Paulo

Friday, February 26, 2010

Feixe

Nao estou fechado, de portas cerradas, não.
Me coloco sempre entre as oportunidades,
digo sim ao mínimo feixe de luz de esperança,
e me agarro a ele como se fosse o último.

Quando olho à frente quero me ver feliz
com alguém tão bravo quanto minha predestinação.
Quando olho além vejo esta imagem
pois tão concreta é minha fé
que não há tristeza, doença, nãos e fases ruins capazes de me fazer parar.

Caio e me machuco como todos,
porém levanto-me como poucos: crente!
Crente no aprendizado, crente no amor
que está próximo, que está vivo em mim e em alguém.
Crente na realização de sonhos.

Um dia sonhei com um lugar, um gramado verde,
uma Universidade muito antiga ao fundo e um riacho.
Noutro estava lá, pessoalmente no pátio do Trinity College
olhando para o Rio Cam.
Era Cambridge nos meus sonhos e não sabia antes de chegar lá.

Então me deixo levar pelo que sinto, pelo que sonho,
pois a cada proximidade do fracasso, vejo que tudo pode ser
como naquele dia, quando descobri ao vivo o que era um sonho.
E assim é minha vida e minha busca.

Quero viver plenamente o amor com alguém,
quero viver plenamente minha Arte,
quero viver plenamente a vida de minhas personagens.
Eu apenas quero viver, e isto já é difícil o bastante.

Por isso que passem por mim
todos aqueles que me virem com bons olhos,
cheios de desejo ou tesao, cheios de curiosidade ou admiração.
Que passem e experimentem o que é estar vivo
pois sou homem imperfeito, digno e merecedor.

Sou algo, isso e aquém,
sou meu, pronto talvez,
sou assim, porém, teu.
Sou tanto, pouco, intenso.
Sou demônio, franco, santo.

E então que fique apenas um,
que esteja e seja afim de viver
verdadeiramente um sonho,
gozar infinitamente um devaneio.
Que seja par, seja amigo e seja inteiro.

E que antes de tudo isso se enxergue no espelho da Criação!

Juliano Hollivier - São Paulo

Tuesday, December 22, 2009

Fade out

Às vezes quero apenas apagar a luz
ver a nudez do silêncio, ouvir os aplausos abafados
sentir que tudo passou
e que tudo não passou de uma breve cena.

Às vezes, poucas vezes, gostaria de um tempo,
de um vento no vácuo, no ócio, no gelo
como se fechasse os olhos e os sentimentos cessassem
transportando-os para cima da vida, para além palco.

Cada vez mais esta peça se complica,
se dificulta, se edifica deixando-me em dúvida
se vou conseguir seguir até o fim,
se vou ser digno do papel a mim Proposto.

E só muito poucas vezes eu quero desistir,
quero saltar pro esmo sem pensar,
quero não ter que virar o rosto e ver que sofri,
só que não consigo por que sou dado a sofrimentos
e acho que isto me deixa esperançoso, crente na felicidade.

Sempre que olho para trás vejo
tantas cenas já apresentadas e vividas
mas é que às vezes, juro, somente às vezes
sinto uma irremediável fraqueza e desesperadamente
o que quero é turn off the lights!

Não sei se os conflitos param,
não sei se as dúvidas se acalmam
ou se as vontades mundanas da alma se aquietam.
Não sei se as dores são tratadas,
se os amores se apagam, não sei.

Só sei que sou homem nú, impotente e cansado
e que muito poucas vezes necessito do black out.
Mesmo que seja escuro esse tempo
talvez seja necessário para que se faça a luz.

Às vezes os por quês dirigem as cenas
pra lugares que não queremos, não gostamos
e assim são feitos finais infelizes, de pouca aceitação.
Portanto, me seja dada a liberdade de sair de cena
sem explicações ou entendimentos alheios
para que, se necessário for, retorne
em outro corpo, em outra mente, em outro palco.

E neste momento vejo daqui, de cima do procênio
que o interruptor principal fica depois das portas
do outro lado da platéia, do lado de lá da vida e da arte.
E muitas vezes as vejo sendo abertas cegando a todos
com a visão da realidade, com a claridade lá de fora.

Mas em alguns momentos me vejo saindo por elas
antes que espetáculo acabe por completo, segundos antes
dos aplausos, atravessando tranquila e lentamente
sem que percebam a ausência de minha personagem,
e assim vou seguindo sozinho num fade out.
E o que fica é uma música ao fundo.

Juliano Hollivier - São Paulo

Sunday, December 20, 2009

Retroinspecção

Hoje é o espelho.
A visão retrogradada de um "Eu" marcado,
de uma vida perfeita e pronta aos olhos alheios,
mas de uma insatisfação sem explicação,
sem entendimentos e muitos anseios.

No canto da moldura
um artista, sem auto-valorizações pelo amor de Deus.
Que se alimenta das dores, dos amores,
que sente muito, que chora, que vive,
tudo intensamente, tudo plenamente.

Reflexo de amigos que cruzam,
interferem, adicionam, engrandecem;
de namoros que perfuram,
ferem, subtraem, diminuem
seu ego, seu crédito,
seu amor próprio.

Irreflectido ato de angústia
por rever a saudade dos momentos
felizes e infelizes, projetados ou não
numa mente e coração de alguém que
nasceu e cresceu num amor latente.

À direita deste espelho
o amanhã e um respiro fundo.
E a dificuldade em crer que tudo
se resolve da forma escolhida por Ele,
instiga o caminho rumo à felicidade.

Juliano Hollivier - São Paulo

Monday, October 26, 2009

Playground

Uma gota d´água, outra gota e mais outra,
sim, a chuva que cai trazendo uma realidade à tona
uma existência efetiva, líquida e fria, como a água que escorre
pelas ruas, pelas casas, por nós todos que andamos por aí
vivendo e morrendo todos os dias,
em todas as noites e em todos os solavancos que surgem.

Não somos e talvez nunca seremos completamente felizes
e essa realidade molha, escorre, incomoda,
esfria às vezes o corpo, faz tremer os lábios, o peito,
faz querermos apenas um colo, um ombro, um beijo.

E à medida que ela desliza pelos braços
e marca o caminho húmido pelas costas e todo o corpo,
a gente vai se dando conta que o tempo está passando
e ainda não chegamos lá, ainda não ganhamos o porto.
Fazendo da poça um oceano de interrogações e por quês.

Será mesmo eterna essa busca?
Se as gotas mandadas se desfazem e secam no outro dia,
se os lagos se enchem, se os rios aumentam de volume
despencando no mar ondas perfeitas, plenas e completas.

Nós homens precisamos mesmo esvair-nos assim?
Escoar como enxurradas, dissipando os sentimentos,
os sonhos, os objetivos ainda não atingidos?
Como se metêssemos os pés secos num buraco cheio d´água?

Será mesmo preciso enxugar o corpo, as lágrimas,
as vontades, os amores não correspondidos,
secar os desejos, as marcas todas que tatuam como enchentes,
que destroem como vento, como tempo, como lástimas?

Deslizando então assim a precipitação cessa n´alma.
Como coisa que não é para compreendermos,
como algo gotejante que segue alimentando nossas dúvidas
afim de nos manter como completos parques de diversão em dias de chuva!


Juliano Hollivier - São Paulo

Wednesday, September 30, 2009

Subterfugium

Excluimos os loucos por serem loucos
assim como ignoramos o outro quando a diferença incomoda.
A indiferença também é arma,
tão potente quanto uma palavra mal dita,
um soco inglês ou um vírus fabricado no erro.

É mais fácil conviver com o que fingimos não ver ou saber,
pois se há algo que nos é eterno e revelador é o conhecimento.
E mais fácil é a maneira como queremos viver,
ainda que para isso tenhamos que ignorar.

A agnosia é aqui um subterfúgio,
desvio muitas vezes inconsciente que nos deixamos escolher.
Enxergar a demência do outro é olhar para si próprio,
e essa é uma prática que exige coragem, entrega e espiritualidade.

Tenho um louco na família,
um vesano que desveste nosso lado ruim, despreparado.
E nunca realmente o enxerguei direito pois tinha outros afazeres,
alguém talvez sano para entender e aceitar.

Hoje já tendo passado essa também dificuldade,
movido pelos surtos meus, seus e de todos,
lembro-me que não o enxerguei como deveria,
e isso me mantém na medíocre linha da superficialidade humana.

Mas o que posso eu fazer, Deus, diante dessa deterioração?
Uma deficiência que pode manter alguém em seu mundo
me fazendo ver que sou e que somos imperfeitos.
Será essa a razão da insanidade? Predestinação!

Como não sofrer com esse esquecimento
se também sou esquecido, excluído como todos sempre são em algum momento?
Como não fingir desconhecer se acabo de me justificar na imperfeição?
Será necessária então a aceitação e uma tentativa de humanidade.

Então por menor que seja a ação pego-me à Arte
para fazer menor meu erro e maior minha bênção.
Escreverei e atuarei na loucura para fazer a minha parte,
mostrando aos outros o quão loucos estão.

A exclusão do desigual, do diferente, do incômodo
será eterna se não mexermos com as mãos e revirarmos a merda
defecada por nós mesmos numa sociedade imperfeita.
Portanto, o surto aqui torna-se desvio para evolução.

Não terá você ignorado alguém hoje?
Ou cuspido na insanidade alheia?
Não terá sido você hoje indiferente ao muçulmano, ao negro, ao traveco ou ao drogado?
"Dado de ombros" ao mendigo, ao oriental, à puta ou mesmo ao desconhecido viado?

Pensar é preciso e falar consequente.
Que o odor destas questões aproxime mais nossas relações,
para que possamos caminhar para o outro lado mais amenos,
mais completos, verdadeiros e mais cheios de virtudes.

Digo não à exclusão!


Juliano Hollivier - São Paulo

Tuesday, August 25, 2009

Veredictum

Nota necessária: Este texto é uma livre experimentação imaginativa e sem existência real, à partir de um depoimento informal feito a mim por uma personagem vivida.

E ele se deitou à frente do seu objeto, ficando personagem e ator frente a frente, um dizendo e o outro ouvindo. Eram dois, eram um, numa cena da vida que abria espaço naquele momento de estudo de gênesi. Um parêntese aberto quando o ator se aprofunda na história para dar vida ao personagem que todos somos. E então personagem fala ao ator num desabafo nú, sem as máscaras do teatro:

"Sinto como se estivesse perdido, indo em direção a algum lugar onde sabia o caminho, o que era, quando era e pra quê e de repente, sem mais nem menos, em fração de segundo não se sabe mais nada, nem onde está, que sentido seguir e o por que seguir.
Um vazio por dentro, uma sensação de impotência por ver que a distância de meu desejo e sonho aumenta a cada nova situação nesta vida.
Disse a verdade que não podia ser dita, uma realidade fria e um pouco cruel. Na verdade a única coisa de que temos certeza, só que um pouco abreviada e ilustrada com alguns preconceitos, algumas cenas de filmes e histórias tristes mais o insuportável medo da antecipação do fim.
A certeza da morte é natural, é comum. Mas saber que ela talvez possa acontecer antes do tempo que gostaríamos não é nada natural e nem um pouco simples.
E dita esta verdade acontece então o que mais temia: a separação de corpos, a visão de seu desespero fazendo-o se questionar da merda cometida, a dúvida e o medo tomando conta de ti enquanto me olha com certo descontrole e nojo contido, com decepção e o que é pior, com compaixão! Tudo isso alguns minutos depois de ser muito desejado, amado e completado.
Visivelmente saudável a aparência não revela o medo e isso juntamente com mais outras qualidades, o fez crer que eu era alguém especial entrando em sua vida. E realmente era.
Diagnóstico de uma doença contagiosa, sem drama, mas daquelas que antecipam suas aspirações. O
veredictum. E mesmo com toda informação à volta, ela amedronta. Um muro imenso e denso se ergue de seu corpo e coração, acho que da alma também, entre mim e você. Do lado de cá deste muro estou eu nesta fração leviana de segundo, sem saber mais nada, nem onde estou, que sentido seguir ou por que seguir. Do lado de lá, não quero, não consigo nem posso sentir.
"
" é a palavra que resume a sensação que me deixa assim, e meu sonho de viver o amor intensamente com alguém se distancia, como disse, mais um pouco."

Juliano Hollivier - São Paulo

Thursday, August 06, 2009

Superabundância

O que nos faz beirar a insanidade?
Busco há algum tempo a manutenção de uma existência baseada no que amo fazer,
subsidiada pela profissão das artes cênicas e alimentada quase unicamente pelo que me faz feliz.
Mas ainda não me sinto feliz, ou quase totalmente feliz.

Será realmente impossível sentir-se plenamente assim?
Satisfeito no ofício artístico e sempre buscando mais desafios, mais reconhecimento.
Amizades saudáveis e sinceras, família cheia de amor e perfeita.
E ainda assim a sensação da ausência, da falta de "algo", de solidão.

Poderia mesmo ser a inexistência da minha metade, do que falta em mim?
A metade que pede sempre sua complementação,
A dúvida que só se cala no peito de um amor perfeito.
E perfeito não significa sem defeitos mas simplesmente existente.

E questões necessitam sempre de respostas?
Impulsionam nossas buscas, sei, mas também causam inquietação.
Machucam, me anestesiam após a dor e passam.
Quando então geram o ócio, o vazio.
E é este vazio o grande problema, o passo para a loucura, para o recomeço.

E o que é para mim insensatez ou actoirreflectido?
Se apaixonar por alguém e sofrer muito não usufruindo da paixão;
Permitir-se sonhar acordado pela evolução ao amor;
Esperar ligações telefônicas, contatos inusitados,
aguardar flores, um presente, um elogio,
buscar imprudentemente scraps, depoimentos escondidos,
fuçar como numa alienação mental as fotos, os recados numa página de web pessoal qualquer.

A busca pelo amor romântico nos deixa insanos.
Mas quero continuar achando possível a plenitude da felicidade,
na metade que me falta e se encontra no outro.
Por que sim, a mim todas as questões se formulam nas respostas.
E o que pra mim é extravagância pode ao menos se tornar sereno quando o tempo passar.

Juliano Hollivier - São Paulo

CICLO

"A realização de um sonho pode resultar num emaranhado de novos sonhos passíveis de novas realizações. Portanto VIVA, SONHE, REALIZE e não se esqueça de que o amor alimenta esse movimento cíclico."

Juliano Hollivier - São Paulo

Saturday, July 11, 2009

Emaranhado

Antes de ler clique em http://www.freewebs.com/julianohollivier/03 Leona Lewis - Homeless.mp3


Realidade versus Virtua Monde.
Atrás da janela d´alma, na internet,
criamos alguém que talvez não exista,
ou somente então em nossa imaginária mente.

Vejo há alguns dias, rosas.
Vejo também o rosto da carência, do estar sozinho, do carinho.
Imagino alí um porto, um jardim, um mar,
de possibilidades, de curiosidade, de trocas.

A câmera aproxima a marca tatuada.
São rosas, como disse, que contornam o corpo despreparado.
Despreparado para o abandono, para a recusa, para o despreparo alheio.
Elas se entrelaçam num emaranhado de sofrimento, dor,
numa linha contínua que comprova a vontade de sobreviver, de vencer, feliz,
aprendendo mesmo que sozinho a traçar seu caminho.

Do lado de cá, na mistura dos pré-históricos de vida,
o medo surge delicadamente como se pintado junto àquela body art.
Se confunde aos espinhos do desenho, às imagens ainda não comprovadas.
Aguarda confuso ao encontro real, ao cair da cortina.
Espera a confirmação da personagem idealizada numa mente carente.

Assim como as rosas, que se iniciam nos arredores do passado
indo em direção ao coração, a vontade cresce com a química, ainda virtual,
de esmorecer naquele peito repleto, ao que parece, de calor, de amor e afago.

A fotografia conquista, mostra os lábios
tão belos como a imagem digitalizada à minha frente.
A conversa surpreende, confirmando nosso interesse
um no outro, um do outro, um com o outro.

Mas o medo persiste, fazendo-me questionar o por quê, o de quê.
Tentativas de resposta, especulações no passado
e mais uma vez me pego pensando na tatuagem, nas costas e no peito.
Concluo que a insegurança é fruto da impossível materialização
de tudo o que desejo, de tudo o que espero como perfeito.

Sei que isso não existe e que o que me cabe
é imaginar, criar, expectar mais uma vez e se assim continuar
me decepcionar, ou não, quem sabe?
Porém que a possibilidade existe não posso negar.

Talvez a continuação daquela marca na pele
possa ser feita com minha contribuição.
Talvez possa aproximar as rosas do lado esquerdo de seu corpo,
talvez possa preencher meu mar, meu jardim, meu porto.

A realidade que se dane,
Mas preciso fazer o que se tem a fazer,
Virtual ou real já me restam poucos ou muitos paradigmas, não sei.
Então que o anjo possa se instaurar aqui, agora!

Juliano Hollivier - São Paulo

Vício

Ele desde o começo disse: " - Vamos viajar juntos até o outro lado. Até você acreditar em mim!". E assim Ela ia aos poucos cedendo àquela sensação estranha, que tomava aos poucos conta da situação. Eu, o que Eu podia fazer? Vendo tudo de dentro, sem poder controlar. Sem conseguir situar, sem querer agir.
Um dia Ela lendo a mensagem que chegava depois de um fim de semana intenso, a dúvida que antes pairava no ar cedeu espaço para o salto de cabeça: " - Quero me envolver em você e assim ficar, permeando seus limites, seu carinho!". Claro que isso foi o que Ela materializou das simples palavras digitalizadas no LCD do celular. Claro que Ele estava sendo sincero também, mas existe a diferença do que se diz para o que se compreende.
Outro momento e Ele lança outra certeira naquele coraçãozinho carente: " - Só liguei para dizer que o sintoma é de Saudades". Ela já cansada de lutar contra, suas mãos já perdidas nos cachos de seu cabelo. Seu olfato completamente viciado no cheiro de sua pele, no aroma de prazer sem volta. Sua boca mataria pelo próximo beijo ou por um simples encostar nos lábios que haviam-na enfeitiçado. Almejava desesperadamente mais uma noite, e mais outra noite, e tantas mais em que pudesse se fazer amada. Ele trouxe o doce na boca daquela criança, lambusou seu ego, disse que casaria, que amaria, disse que "viajariam juntos até o outro lado". E Eu? O que podia Eu fazer? Dentro e vendo tudo, sem poder controlar. Sem conseguir situar, sem querer agir.
Foi quando o sumisso daquele Anjo pôs fim à fantasia daquela Alma. E quando Eu se tocou realmente que não tinha mais controle sobre si, que estava novamente perdido. Agora era Eu, não mais aos poucos, que apresentava os sintomas de Tristeza, de Falência, de Loucura.
Eu, agora não mais Alma, agia desesperadamente correndo contra a realidade do abandono, ou do sonho tão querido materializado. O senso do certo e errado não existia mais, absorto na ferida da lembrança. Eu vai se aproximando rapidamente do limite do outro lado: da insanidade. " - Deus, POR QUÊ? Por que brincam comigo assim? POR QUÊ, Me diz?". Desespero, noites insones, lágrimas e saudade, vão aos poucos trazendo aquela Alma de volta de sua viagem, vinda do lado de lá acreditando ainda menos, não acreditando sequer em si mesma. Ele, o anjo, some mesmo. Ela, Alma, talvez se recupere lentamente aos poucos. E Eu? O que poderá Eu fazer senão dormir, com esperança de um sonho novo? um sonho bom? de um dia novo? e, quem sabe, de um Anjo real?

Juliano Hollivier - São Paulo

Friday, June 19, 2009

Seu

Vontade louca de estar do lado
abraçado, sentindo o calor dos corpos nus
beijando de vez em quando
com os pés e pernas entrelaçados.

Bateu a saudade do cheiro gostoso
da pele, da boca, tão linda,
de afofar a mão nos cachos do cabelo, tão pequenos,
de alisar as costas, a face, a bunda.

Triste passar essa noite insone
sem a certeza da companhia gostosa,
sem as coisas de menino novo, lindo;
com a dor de uma solidão de ressaca.

Impossível dormir, difícil parar de pensar
difícil parar de sentir.
Só queria estar do seu lado
olhando seu rosto de anjo dormindo,
acariciando e beijando seus lábios.

Juliano Hollivier - São Paulo
for Gui

Monday, June 08, 2009

Até o Fim

E quando menos se espera, acontece.
Cabeça desperça, a mente desliga
da côr, do cheiro, da forma do amor.
Ligação homem-mundo cai,
Equilíbrio e ponto se desviam,
Segundos fracionados
num sumisso de história.
Como se nascesse alí, naquele instante,
sem ontem, antes e dores.
Frente ao tic-tac inóquo
você se percebe, no outro.

Assim foi, olho na boca
mãos no peito, na nuca.
Vontade e curiosidade,
seguidos de encontro, abraço, beijo.

Lentamente a frequência volta
noutra velocidade, vibração.
E continua seguindo aos pares
Sua energia vibrando na outra.

Desta forma, nas linhas que escrevo
ou que se Escreve pra mim
Paixão, toque, prazer completo.
Mais um poema que se forma, sim!

Para esta possível nova história, sim.
Mesmo que se acabe num segundo dia, sim.
Mais vale a sensação daquele abraço,
A noite dormida agarrado,
onde os beijos surgem entre os sonhos
sonhados a dois.

Me permito sim viver assim,
onde dia sim, dias não,
que menos se espere para que tudo aconteça:
Amar, ser amado, ser feliz até o fim.

Juliano Hollivier - São Paulo
for Gui

Tuesday, April 07, 2009

Nature Morte

Clique no link para ver a Performance deste poema - Virada Cultural São Paulo 2009 - Copyright Sao Paulo 2009 Juliano Hollivier: http://www.youtube.com/watch?v=StJKQ5UaDDY


Hoje, ontem, amanhã
Como folhas secas jogadas ao vento
Ocupamos espaços de maneira estranha
Viajando a esmo no tempo.

Somos seda, luz e flor
Somos alma, tinta, dor
O que fazemos da existência senão Arte, Beleza, Amor?
Para que sejamos reconhecidos
Caminhando como estrelas no universo.

Feche os olhos
Respire a alma
Escute a música
Viva as cores, as telas, os amores.

E a natureza, mesmo morta,
Ressurgirá ao seus olhos,
Aos meus olhos,
Aos olhos de todos.

Feche os olhos
Respire a alma
Escute a música
Viva as cores, as telas, os amores.

E a natureza, mesmo morta,
Ressurgirá ao seus olhos,
Aos meus olhos,
Aos olhos de todos.

Assim viva então o momento da Criação.

Juliano Hollivier - São Paulo

Wednesday, January 03, 2007

Colors

Antes de ler clique em http://www.freewebs.com/julianohollivier/AmosLeeColorswithNorahJones.mp3

"... olha a luz do sol naquele campo!??!
parece desenterrar o verde que vem aos poucos.
Tao lindo o frio mesmo frio divide com ele a paisagem."

Assim se faz, se fez, foi feito,
o momento gravado para sempre na memoria,
uma frase a si mesmo somada a
uma musica dita Cores com Norah Jones.

O cinza do inverno abria ali espaco
pro entardecer que coloria tudo a sua volta,
e o vento umido quase negativo desviava o peito aberto.
O chao molhado por uma chuva fina que acabara a pouco,
refletia as duvidas, as incertezas de uma mente intermitente.
E os passos...! Ah, os passos eram dados um apos outro,
em direcao a cidade e as vezes uma olhada ou outra
pro caminho que ficava pra tras como se conseguisse
ou quisesse deixar realmente tudo onde devesse ficar.

Outra volta pelas ruas de uma cidade pequena,
charmosa, timida, curiosa.
A esquerda os campos quase verdes de uma escola imensa,
pela direita, descendo ao cheiro de folhas de arvores molhadas,
o olhar faminto de respostas, de encontros, de certezas.
Cruzo a rua de lojas, sorrisos medianamente verdadeiros,
passo a ponte sobre o rio Stortford, viro novamente
em direcao a um ponto seguro, uma companhia segura, real.

Alguns minutos ali em frente ao Mac Donalds, um olhar brincalhao,
um lanche sem pagar, outra frase engracada e muitos risos.
Como se aquela companhia, tao especial de uma vida inteira,
anestesiasse a caminhada habitual.
Como se aquele amor familiar sobrepusesse as lacunas que
ainda nao podem ser preenchidas,
calasse alguns milhoes de por ques e acalmasse o espirito.

E' certo que sim, amor incondicional preenche quase todas,
so' que trata-se de alma, corpo e mente feitos de uma busca eterna.
Alguem que nao se basta com o amor familiar incondicional, ainda.
Alguem que sai pelo mundo sob o "risco do manicomio"
fugindo com certeza do "risco do carcere".

Subo no carro, dois sorrisos inteiramente verdadeiros e
a cidade ja escura agora, sem o verde que lutava pra parecer belo,
vai ficando pra tras no retrovisor de um olhar calado.
"... pardon me, mas eles sempre voltam, luz, sol e frio. E o verde
sera sempre belo nos campos proximos ao coracao. Basta olha-los
e enxerga-los."

Juliano Hollivier
Bishop's Stortford - England
Dedicado a Marli Brocchi, minha tia.

Monday, December 25, 2006

Tempos Diferentes

Os dias se passaram para provar
que nao se mata nada o que ha dentro da alma.
Um sentimento tao forte por alguem nao acaba
assim com o vento que limpa a sujeira
quando arrasta os cacos, as cascas, os sacos.
Nao se disfarca o azul da agua de um sonho
sendo o deserto ao fundo o ponto de fuga,
acordando e dando de cara com a falta do seu corpo.
Rua vai, tropeco vem e o que sempre resta e' saudade.
Perfume na mente, perfume no toque, no labio, no escuro da insonia.
O cheiro que leva as lembrancas de um lado pro outro,
pro teto de uma esperanca e quando la em cima despeja tudo
ate cair o pano da fantasia, a mascara da alegria que
com o passar dos dias ha muito deixara de ser vivida.

As semanas se passaram para mostrar
que somos despreparados diante da luta contra nos mesmos,
por que la atraz, a prata que vinha do seu olhar prescrevia
noites de sofrimento que alimentariam um ego dado a autocompaixao.
As musicas, os filmes, o peito acolhedor, o sexo
fizeram crescer um sentimento que nao poderia ser vivido nesse tempo.
O coracao de um querendo estar numa historia
de redencao talvez, preenchendo a "folha em branco".
A alma do outro pronta pra viver o prazer sem medidas,
dividindo vida, conquistas, gostos, cheiro, morte.
Rua vai, tropeco vem e o que se ve sao tentativas sim
das duas pessoas dividirem juntas o tempo
de um sentimento em comum cada qual a sua maneira.
A expectativa de um elogio, um presente de aniversario, um jantar indiano,
um vidro de perfume, uma viagem de ferias, uma mesa em cacos,
um abraco na porta do elevador, um dedo quebrado, a alma machucada,
um giro atras do outro fazendo desta mais uma noite nao dormida.

Os meses se passaram para trazer a tona
o gozo do erro em achar que essa distancia fisica
lava a mente viciada, sendo a droga algo tao puro e belo como o amor por alguem.
Ha milhares de lagrimas longe de ti
agora vejo que um sentimento so' e' mesmo pleno
quando se esta perto pra tocar, sentir, ouvir, chamar e que
se ama a meu modo e tambem se ama ao seu modo.

Os anos se passaram para mostrar
que definitivamente vivemos em tempos diferentes,
dias, semanas, quem sabe meses de diferenca um do outro.
Duas pessoas que coexistem num sentimento prescrito
so' que com uma distancia de tempo entre si.
Porem nao esperemos que passem mais anos de nossas vidas
para que esse erro na linha do tempo nao possa ser reparado, corrigido.
Sonho acordado na insonia de um amor latente
e nele voce aceita meu calor, pra sempre.


Juliano Hollivier
London - England

Monday, December 18, 2006

Quando a Mente nao Desliga

Atravessa a rua, vai. Corre.
Caralho mais uma vez olhou para o lado errado.
Cuidado, aqui os carros vem pelo lado contrario.
Cruza um olhar, desvia outro,
esbarra seu monte de blusas nos casacos de um frio denso.
Preste atencao, novamente outra rua e ao seu lado Trafalgal Square.
E' tanta gente indo e vindo e todos buscam algo,
esperam algo de um esforco sobre-humano.
Um rosto escuro indiano, outro branco polones,
um sotaque estranho pedindo ajuda sobre uma rua
e as vezes, muitas vezes, brasileiros correndo.
Como voce corre agora!
Vai, atravessa aquela praca.
Nao para, olha pro mapa, sente o frio, sente a alma.
Olha o caminho em que se colocou e nao chora.
Vai, nao chora agora. Cuidado, o onibus de dois andares.
Desse jeito sera atropelado e nao vai nem saber
atras do que esta correndo.
E' emprego? Sobrevivencia? O que e'?
Me desculpa, mas eu tambem nao sei...
Ouve um nao, um talvez, quem sabe.
E' felicidade? Dinheiro pra comer mais tarde?
Ou e' algo pra provar a si mesmo que e' capaz?
Sim, voce e' capaz nao tenho duvida.
Mas e a felicidade?
Dentro de voce! Hum, desculpa, sei que e' dificil.
Para, pelo amor de Deus, para agora.
Pare agora de chorar.
O vento bate, assim congela seus sentimentos.
" - Sorry, he doesn't know what he is doing."
Esse silencio so' esta em voce pois a cidade grita, buzina.
Bicicletas-taxi, luzes,
belas fotos, cafes, gays e liberdade a flor da pele.
Senhoras bem vestidas falando ao pe da torre sobre o Thamys.
E voce nao deve parar. Por favor nao desliga.
Nao desliga essa luz, voce precisa enxergar.
De repente dentro do onibus, no andar de cima,
o Big Ben aceso de um lado, o vidro embacado escorrendo agua pelo frio,
e uma musica toca pedindo-lhe beijos.
Kiss me... e a esperanca se renova em voce.
De novo? Lindo sim, apaixonante com certeza.
A musica te puxa pra cima, cuidado.
O tombo pode ser maior, cuidado.
Uma mao segura a sua, esquenta o corpo ha muito gelado.
O coracao bate forte, esperancoso.
Foi alguem que viu seu jeito menino, sensivel,
sedento de carinho e ajuda.
Atencao! E' mais um amigo e basta.
Pare agora mesmo, salte desse onibus agora.
Siga pela rua, continue a buscar.
Nao pare nunca de buscar, mesmo que nao
saiba oque. Pois essa esperanca que sempre se
ascende com um toque leal te mantera
quente, te mantera vivo. So' pare de chorar
por que nao consigo te ver chorando
sem me emocionar. Hei, eu nao tenho como
te abracar, sou voce mesmo lembra?

Juliano Hollivier
London - England

Monday, November 27, 2006

Meus olhos aos seus

Ciao carissimo, estou aqui na sua frente mas voce nao me ouve, eh o meu pensamento louco dizendo, que manifesta todas impressoes. Falo enquanto penso ansioso como sera mais essa entrada. Nesta alfandega voce carimba a faraonica tentativa frustrada. A sencacao eh monstruosa, eh boa, eh estranha. Gela o estomago, congela a boca. Boa por que ainda permite a esperanca correr o corpo e tambem por que encerra uma experiencia ruim. Agora o que tenho pela frente nao sei, nao consigo nem pensar pois alem de tudo o que passa na mente junto esta o medo do desconhecido. Olho pros seus olhos acostumados a virem olhos como os meus: inseguros, aflitos, curiosos, amedrontados, infantis, cansados e esperancosos. So consigo ver nos seus o conscentimento positivo e um " - Vai, se cuida por que aqui eh como em qualquer outra parte do mundo: uma selva!" Facile cosi per sbagliare. Passo a frente, bagagem nas maos e folego escasso. Minha unica certeza era uma cama quentinha noutro pais a duzentos e cinquenta euros dali.
Arrivederci Bari.

Juliano Hollivier
Bari - Italia

Saturday, November 25, 2006

Teatro Amador

Uma personagem qualquer que andava por ai agora se esbarra no erro e cai. Sofria por amor, cansaco, frustacoes. Quando entao as cenas mudam, o cenario muda, a lingua muda, tudo muda e por estrategia de um outro diretor qualquer acontece um giro de 360 graus com intencao de transformar o sofrimento, inverter o rumo de uma vida sem rumo que fugia do controle.

Trocas de figurinos, trocas de objetos cenicos, trocas de luzes e atmosfera. Porem a personagem ainda e a mesma, com toda a genesi e impressoes. O diretor dizia que era uma chance unica, no mesmo espaco cenico cabiam o acerto e o erro. Bastava um passo em direcao a um deles. Entao, o erro! Uma personagem qualquer que andava por ai, dirigida por um diretor pouco experiente talvez, se esbarra no erro e cai.

Experimenta a incerteza do desconhecido, da mudanca, viaja por lugares diversos, conhece outras personagens que contribuem para a constatacao do tombo. Quebra a cara, sente o baque da decepcao. A cena agora e vazia de elementos, nao ha cenario e sim um pano preto e riscos de giz ao chao que demarcam limites, nao ha trabalho, dinheiro, nao ha pessoa amada, nao ha nada que nao seja caos.

O tecido preto e sujo de desespero, de vergonha, as luzes iluminam a sensacao de perda: azul para arrependimento, ambar para a dificuldade e para o ocio, o vermelho ofusca o amor queimando seu corpo e sob a incandescente luz branca, silencio, nada, falta de rumo. Estao personagem e diretor agora na boca de cena. A atmosfera e essa ja descrita, ao fundo uma musica triste qualquer toca as maos em riste e o monologo e lentamente sobreposto por uma cortina densa. Nao ha aplausos, nao ha vaias, nao ha nada alem do fosso.

Atras daquela cortina, agora vendo da plateia, ainda estao imoveis personagem e diretor com a certeza do erro, sem saber como repara-lo. Sou personagem e diretor, vivo o monologo de uma vida so num teatro amador qualquer por ai.


Juliano Hollivier
Sharm El Sheik - Egypt

Saturday, September 30, 2006

Essência

"Somos feitos de luz, calor e emoção. Troca, desejo e alegria. Somos feitos do outro que deposita em nós confiança, amizade, respeito. Somos feitos do amor próprio que alimenta e se alimenta do amor alheio. Somos tudo aquilo que no outro enxergamos belo, intenso e verdadeiro. E quando tudo isso deixa de ser essência passamos a ser feitos de esperança, que se ascende com uma simples faísca chamada carinho."

Juliano Hollivier

Saturday, June 17, 2006

O Diabo Espancado

Saí de casa atormentado pelo peso enorme dos ombros
guiado pela dor que latejava o pescoço, as mãos, os dedos das mãos
o peito tomava a frente e me empurrava até o local fatídico
tinha sido mais uma noite de sono não dormido
de vidros pinicando na cama
de ódio cutucado pela curta vara do ciúme
Levantei obstinado, predestinado, obcecado
necessitado de uma explicação, de outra tentativa de conversa
de uma possibilidade de trégua, de uma tranquilidade que nunca viria
Caminhei os passos pesados do Anjo que já havia caído um dia
que já havia renascido e viajado em sua tentativa suicida sem sucesso.
Aquele parapeito foi neste dia o trajeto de uma rua que apenas muda de nome
De repente me vi frente a frente com aquilo que mais detestava nas pessoas:
o ódio agressivo que as tira do eixo.
Após ouvir o que já sabia intuitivamente sobre mais outra traição
não vi, não senti, não pensei, não premeditei, não amei como deveria,
e sim surrei, soquei, explodi, pulei em cima, machuquei,
e destrui tudo o que podia ser feito ou tinha sido feito de bom entre duas pessoas que se amam.
Em questão de segundos tudo foi ao chão, o respeito, o amor, a paixão
o brio, a admiração, o olhar mareado de espanto, de horror, de medo,
Via em seus olhos a tremenda merda que tinha feito,
aquele brilho, de uma certa prata que um dia valorizou e enalteceu seu olhar em mim
estava agora sujo de sangue, de lágrimas roxas e hematomas.
Mas alí naquele momento vivi o que deveria mudar o sentido da minha vida
espanquei meu amor como se pudesse destruí-lo alí mesmo
como se aquilo iria trazer a paz que almejava e a dor causada
por amar pudesse ser espancada junto, aniquilada.
Havia uma necessidade imensa em deixar marcas naquele corpo,
naquela alma que a mim parecia tão fria, tão puta, tão filha-da-puta.
E assim o fiz e só parei quando percebi que meu nariz escorria sangue,
quando vi que estava mais machucado e se não saísse dalí
acabariamos ou um ou outro no chão.
O espelho no elevador me refletia podre, sujo, machucado,
a rua olhava curiosa até puxar meu corpo, que caiu na calçada
aos prantos, perdido, doído, arrependido!
Como não poderia deixar de ser um anjo ajudou-me levantar,
especulações Divinas talvez, já que era morador daquela mesma
calçada, dizia se comover com a cena.
O trajeto de volta com certeza foi muito mais difícil, os passos largos
mais doídos, mais pesados.
Alguns dias se passaram pra misturar todas as sensações
e perceber que fui o próprio diabo, espancado.
O fogo entrou comigo naquele lugar e
ainda que a iniciativa fosse apenas uma conversa, ele iria queimar.
E essas sensações todas se resumiram em arrependimento,
em arrependimento, em arrependimento, e arrepender-se
significa prostar-se diante Dele e suplicar por perdão!
Hoje esse Diabo que espancou, espancado suplica:
Perdão, perdão, perdão. . .

Juliano Hollivier

Wednesday, June 14, 2006

Olhar

Divino se faz Sorrrindo e assim você foi feito,
Descobre-se além deste tecido
Uma cativa alegria, um gostoso toque de imaturidade
Porque maduras são as idéias, vividas talvez,
a experiência que quem sabe se fez
o tornando assim: toque, riso, cheiro, pleno.
Imatura é apenas a impressão que deixa
lindamente no ar com o mesmo olhar
confiante, que atravessa, que arrebata,
um olhar amigo, um olhar que ajuda
a todos, solidariamente preenchido de amor
ao próximo, seja ele quem for...
Avanço pela cortina do riso
e descubro muito mais que tudo isso
encontro a segurança da amizade.
E isto é tão bom quanto qualquer outra coisa,
talvez melhor, resta então viver esse olhar
esse toque amigo, o cheiro familiar,
a plenitude de uma companhia tão maravilhosa.
Ao menos que esta segurança não seja o único desejo.
Atrás da cortina há o Sorriso,
o Olhar, a Bondade, o Perfume, a Amizade.
Continue neste palco, à maneira como está,
que receberá sempre aplausos,
sinceros aplausos de pessoas admiradas,
E encerre seu show também com o Olhar pois
Divino é o Olhar que desnuda a alma!

Juliano Hollivier

Monday, June 12, 2006

Killing Someone

'Killing me softly with this song'
ondas and waves de um rádio qualquer
navegadas pelo cansaço of the boat that´s to live.
This song has much off me
não por que aprecio mas por que a ouço hoje, at this moment!
Sinto morrer aos poucos, aos trancos e barrancos,
aos tropeços and stand up´s da vida.
Each minut lived is a minus minut to live.
Horror? Não, constatação...apenas.
Timing is running e a gente vai ficando atrás das lembranças.
Good remembers se transformam em saudades,
Más lembranças em arrependimento talvez,
porém me pego pensando no que significa isso tudo,
essa insatisfação humana que me percorre e corre o mundo.
How more felicity we feel than much more we wish...
Quanto mais tristezas te derrubam maior a necessidade de nos provar CAPACIDADE.
Pra que tudo isso?
Um enorme e sonoro "PUTAQUEOPARIU" pra quem quiser ouvir ou gritar...
Crise existencial é um preço justo? Ou a superficialidade é um presente e não sabia?
Today is just a day, e amanhã não será diferente
a menos que essa música don´t play again!
Killing the idiot that played this song.

Juliano Hollivier