Sunday, November 09, 2014

Performance CAOS na Casa de Observação do Corpo


A CASA DE OBSERVAÇÃO DO CORPO apresenta
Juliano Hollivier em Performance CAOS

“Usufruir e descartar, isso gera caos. Não saber ouvir e observar o outro, isso também gera caos.”

O fotógrafo João Mussolin, em parceria com os atores Juliano Hollivier & Cristina Ferrantini, propõe um espaço para a observação do corpo e suas expressões. O local abrigará performances criadas para aqueles que estudam e registram a figura humana através do desenho, pintura, escultura e fotografia e também para os que só desejam observá-la assistindo às criações. O trabalho realizado pela dupla de atores performáticos e modelos vivos, convida aos artistas e público em geral a observarem o corpo nu de uma forma artisticamente mais abrangente.

Abrindo o calendário de atividades, a primeira série de observação para o desenho acontecerá nos dias 11, 18 e 25 de Novembro e 02 de Dezembro das 20:30hr às 22:30hr. É necessário que o participante traga seu material próprio de desenho. Estreando a abertura da casa, a performance intitulada CAOS é apresentada por Juliano Hollivier e sugere ressignificações constantes e necessárias que público e artistas recorrem ao interpretar ou compor suas obras. As sessões se darão com poses longas e curtas (1 a 20 minutos) interligadas por movimentos lentos e são contextualizadas pelo tema, música e poesia. Haverá tempo final para comentários, explanações e amostragem dos desenhos realizados.

As inscrições devem ser feitas até o dia 10 de Novembro pelo e-mail casadeobservacaodocorpo@gmail.com  ou pelos telefones 11 9 9444 8980/9 8161 5175 e pagas até a mesma data.

Valores Desenho: R$ 100,00 (4 sessões), R$ 85,00 (3 sessões), R$ 70.00 (2 sessões) e R$ 35,00 (1 sessão). Valores Fotografia: Valores: R$ 200,00 (4 sessões), R$ 185,00 (3 sessões), R$ 170.00 (2 sessões) e R$ 135,00 (1 sessão). (As imagens realizadas na performance são para uso pessoal em portifólio do fotógrafo e não podem ser comercializadas ou vinculadas a campanhas publicitárias e/ou produtos sem a autorização do modelo.)
(Lotação: 50 pessoas)

Casa de Observação do Corpo
R. Costa Aguiar, 1002 - Ipiranga.
Fones: 11 9 9444 8980 / 9 8161 5175.
(Pede-se chegar ao local com antecedência mínima de 15 minutos. Após o início da performance a entrada não será permitida).


Monday, May 19, 2014

Vem A Mim

Vem a mim, vem a mim.
Ouça minhas palavras que o levarei a lugares incultos.
Nunca experimentados.
Respire comigo neste caminhar de intenções, respire.
Vem a mim e o céu será teu.
O azul profundo lhe tomará os olhos e dará as asas que tanto almeja.
Vem a mim que o seu mundo será meu para que possa presentear-lhe a cada dia com um universo retransformado.
Inspire meus sentidos e verá a lua como sua, os bichos como teus, as cores todas nuas.
Vem a mim e o vento em brisa mudará, os galhos desenharão a paisagem com anagramas poéticos, e o som das ondas do mar tocará o seu sono.
Vem a mim e acompanhe minhas palavras, meus respiros, meus desenhos de mim mesmo e verá que todos eles são tentativas de fazer-me teu.
Vem a mim e sonhe, sonhe, sooooonheeee!

Juliano Hollivier - da série METAMORPHOSIS Corpo em Transformações.

Assista ao vídeo:


Saturday, May 03, 2014

Exílio

Há tanto se espera o encontro, enlace da alma.
Há tanto se deseja paz no corpo, oásis sereno.
Quanto de si há de se largar para no outro refazer?
Quanto de carne há que perverter enquanto nãos arruínam sonhos?
Sina bendita a da solitude, pois nela se permite sofrer sem sofrimento.
Onde estará a parte que de mim perdi no cosmos de todos vós?
Onde?

Juliano Hollivier, Exílio. 2014

Tuesday, April 15, 2014

Pretérito Refletido

Olhei no outro as buscas que deixei e alcancei,
Olhei no outro as falas que calei e articulei,
Olhei no outro os mimos que guardei e presenteei,
Olhei no outro poemas que rasguei e escrevi,
Olhei no outro beijos que não dei e selei,
Olhei no outro rumos que voltei e tracei,
Olhei no outro voos que almejei e alcei,
Olhei no outro imagens que joguei e pintei,
Olhei no outro tudo aquilo que perdi e não recuperei e ganhei e compartilhei,
Olhei no outro paixões que recusei e experimentei,
Olhei no outro medos que não enfrentei e abstraí,
Olhei no outro desejos que neguei e aceitei,
Olhei no outro portões que fechei e abri,
Mas também olhei no outro o espelho em que me vi.
(Juliano Hollivier)

Juliano Hollivier, da série METAMORPHOSIS - Corpo em Transformações.

(Assista ao vídeo da performance com este texto:)

Sunday, March 30, 2014

Voo Sem Asas

Muito falamos sobre voos e asas, muito dissemos sobre ventos e brisas.
Muito mostramos os trajetos traçados, as calçadas sobrevoadas.
Porém o que é voar? Como é estar em um céu perfeito cujas imagens vistas de cima se recriam aqui em baixo, sob nossos traços?
Voar pra mim é percorrer a pé todo caminho ao seu lado, é desbravarmos juntos cada légua trilhada.
Voar pra mim é suar com seus olhos e mãos, dedos e boca.
É desvendar todos os percursos deste mapa chamado corpo.
Voar pra mim é falar ao vento o quanto lhe compreendo, o quanto enxergo e o quanto lhe respeito.
É presentear o mundo com poemas e paixões que me inspirem, é perder, recuperar, cair e amar.
Voar pra mim é desejar sempre, enfrentar sempre, aceitar sempre para poder com humildade distribuir serenidade.
Voar é despir as mentiras, é brindar novas conquistas.
É sentir o vento na cara quando a multidão se levanta aplaudindo suas mudanças.
Voar é deitar ao seu lado para olhar o céu repleto de pássaros voando.
Voar é junto a ti desenhar o mundo melhor, o mundo refeito, o mundo perfeito.
Voar é morrer e nascer, respirando a arte que teus sonhos fabrica.
É tentar sempre o melhor, é buscar todo azul de todo mar de tua essência.
Voar é vê-lo rir, é vê-lo chorar, é vê-lo crescer com cada verso desenhado.
Voar é estar completamente inteiro à disposição do amor ao outro, às coisas e seres.
Ainda que se fale demais, ainda que se veja de menos e ainda que se caia no esquecimento,
Voar é amar! Com todas as letras e repetições necessárias, voar é amar! Amar!

(Juliano Hollivier - da série METAMORPHOSIS - Corpo em Transformações)


Monday, February 17, 2014

METAMORPHOSIS

Mudar o quê? Mudar pra quê?
A inocência  que encanta, desabrocha o riso,
ilumina novos rumos a tomar, inspira novas trocas fazer.
Inesperado momento reflete renascimentos de vontades,
desejos, sonhos e possibilidades.
Como numa revoada quando as folhas bebem o céu e as flores beijam o sol,
papéis mostram ao vento bilhetes rascunhados, mensagens não ditas,
cartas apaixonadas, rimas da boca e dos pés que o vento leva,
elisões de amor em voga que o vento toma,
suposições descritas em versos pintados com cheiros, com beijos sonhados,
desejados, esboçados e refeitos em centenas de papéis que o céu toma como dele,
e o vento carrega ao léu.
Um olhar correspondido é o que sopra este vento,
que acende o brilho na sombra desenhada,
lambe aromas marcados no corpo branco, quase dourado,
liso e sereno, sedento e perfeito.
Esculpe formas e volumes novos , traços trêmulos e lábios rosados.
Renova o fogo calmo no peito cansado e renovam, olhar e brilho, os caminhos trilhados neste corpo jovem de alma bela.
Mudanças geram força, modificam formas,
Renascem almas, cores e amores novos, crianças, puros e delicados.
Neste voo de papéis e folhas, flores e aromas, pássaros se debandeiam, insetos se rogozijam ,
E todo bicho que voa se emudece e ganha o céu.
E no chão restam pés e mãos que desejam, e só desejam ganhar o céu da tua essência.
Restam olhos que se entrevêem, peles que se querem.
Lábios que se engolem, mesmo que imóveis.
Corações que se entregam num mergulho sem volta.
Neste chão ficam os sorrisos espontâneos , piscadas involuntárias e fôlegos não controlados.
Ficam resmas de curiosidade, de afago e descobertas.
Ficam tons de volúpias entrecortadas num simples reconhecimento de desejo mútuo.
Ficam roupas largadas, nele jogados, canson e pincéis que testemunham o voo do corpo no outro,
Assistem aos beijos selados e devotos, pele a pele, tato a tato,
Olham caminhares de dedos que percorrem os tons acetinados
Rasgando-os de um vermelho delator,
Abençoando os fluídos e sentimentos trocados, renascidos.
E no céu restam sol, pássaros, flores e papel.
Mudar para se propiciar vivo e humano, amado e repleto.
Mudar para que no outro se encontre novo e se refaça pleno.
Mudar o ponto de vista, a calçada traçada,
As formas acostumadas e usadas, e os padrões aprendidos.
Mudar o corpo e a alma de lugar, e assim metamorfosear-se por aí.
Transformando-se dentro do outro e nunca mais sentir-se só!

Juliano Hollivier – 12 de Fevereiro de 2014

Foto: Eva Bella 

Sunday, February 02, 2014

DESÍGNIO

(link para música Still, de Bombay Bicycle Club, acompanhar a leitura http://www.4shared.com/mp3/M4-jKg8Y/12_Still.htm)

Desenho com os olhos o seu corpo,
Linha a linha, massa a massa,
Se inebriam ao meu desejo de refazê-lo outro, noutro.
Desenho com os olhos os seus pés,
Veia a veia, dedos e caminhos que percorrem
Juntos à minha emoção.
Eles são meus e neles devoto os passos mais secretos,
Que a você compartilho.
Desenho com os olhos os segundos vividos em sua coxa,
Conjunta em um colo desmesurado,
Marcada pelo tônus da força carregada há tempos.
É com os olhos que desenho teu sexo,
Por que são frios à medida do desejo que o contorna,
Contrabalanceando luz, sombra, calor e alma.
Equilibrando força, amor e calma.
Desenho com os olhos os momentos que invento nesta viagem,
Nos minutos traçados a cada massa que vejo, a cada idílio alcançado.
E com eles componho minha própria figura,
Repleta de mim mesmo em você, de você em nós dois.
Desenho com os olhos as linhas que sobem a virilha,
Contornando em “s” a forma mais perfeita do seu corpo.
em segredos, sensações e sentimentos.
É com os olhos que desenho as massas de seu âmago,
Riscados na persistência que misturam-se às minhas.
Eles acompanham os degraus desta composição,
Guiando meus dedos imóveis e rijos,
Enfraquecidos pelo gelo em vê-lo nu,
Este seu corpo, poderosamente perturbador.
É com meus olhos que construo minha desconexão,
E são eles que me levam ao delírio da Divindade por fazê-lo tão puro,
Seu corpo, tão pleno, tão verdadeiramente meu.
Com os olhos desenho seu peito, farto de sofrimento,
Porém tão necessitado de meus devaneios.
Eles, os olhos, riscam seu colo num afago de liberdade,
Como se delineassem os dias que seguirão adiante.
Se calam eles quando atentam sua boca,
Muda e serena de gritos guardados, de sussurros embuídos,
Percorrem lábios consternados e famintos de beijos rasgados.
É com os olhos que desenho os seus olhos, minuto a minuto,
Observando-os fitar-me tão despretensiosamente, tão provocantemente imóveis.
E é neles que perco-me todo, sem resquício de volta.
Apenas restando-me o papel e o carvão.
Em seus olhos vejo meus medos, por isso me perco,
Vejo meus sonhos e erros, por isso me perco,
Vejo meus esboços não terminados, abandonados,
É por isso que me perco.
Vejo minhas mãos trêmulas por deseja-lo tão perfeito,
Porém vejo transformar-me em seus olhos, que me olham
Tão atentamente mudos, tão questionadores e resolutos.
Vejo-me melhor em seu olhar.
Ah, o seu olhar, é nele que me encontro novamente.
Que recobro minhas buscas,
Que recrio meus amores.
Em seu olhar que refaço minha coragem, meus acertos,
Resgato e concluo rascunhos inacabados,
Compreendo que de perfeito só nossos credos são feitos,
E é com meus olhos que te olho
Para desenhá-los seus, sem acrescer de nada que não seja teu.
E é com eles que assino minha obra, meu desígnio.
E quando revejo traço a traço, me vejo transformado pelo complexo ato de te olhar!

Juliano Hollivier – 03 de Fevereiro de 2014
(dedicado aos artistas que compartilham seu crescimento com minha arte)


(Foto: Maria Pacca)

Assista ao vídeo:

TIME´S OVER

O poder do tempo sobre tudo o que vivemos, sobre tudo o que fazemos.
A ação que ele exerce em cada face de harmonia ou desarmonia é primordial para se chegar à compreensão do todo.
O TEMPO.
Ele tem o poder!
Ele manda, dita regras e reedita fases.
Organiza todas as desordens causadas por nós. Ensina todas as lições que não somos capazes de aprender. O tempo nos comanda, nos escraviza, nos abduz.
Tem a face da morte como justificativa para quaisquer descrenças e desavisos.
Ele induz, corrobora, permeia, delineia e preenche.
Esgota conquistas nos “emputecendo” no egoísmo até que suaviza as perdas e desfacelamentos.
O TEMPO.
Você já ouviu dizer que “o que não está em nossas mãos estão nas mãos dele?”
Existe constatação mais absurda como esta para nós, seres humanos sedentos de controle, domínio e superação?
Como admitirmos algo que não podemos deliberar ou conduzir ao nosso sentido?
Sim. Ele existe. Não se toca, não se sente como a um tapa na cara, definitivamente não se controla.
Nos iludimos nos tempos dos outros, nos tempos de cada um.
Nos confundimos com nossos próprios tempos.
Nos enganamos a nós mesmos com o tempo que temos e de tempos em tempos retornamos a nos contemplar chorando, gritando ou rindo de nossas durações!


Como competir com algo que sequer vemos? Inteligente é seguí-lo.
Viver seguindo-o em paralelo.
Posso dizer que o meu tempo é um e o seu outro mas nunca esquecendo que essa abstração só nos cabe em nós. O meu tempo é orgânico, variado, curto às vezes e longo na maioria delas. Deixa-me mostrar-te o meu tempo:

O meu tempo é outro, contido porém repleto de elisões.
Ele se arrasta nas separações dos entroncamentos.
Ele se estende pelas guias de ruas percorridas tão desordenadamente.
Meu tempo é único a cada segundo que se repete ininterruptamente nos arredores das brechas.
Ah meu tempo é desfoque, conciso, quase disléxico.
Me apoio nele muitas vezes para compor as celeumas da vida.

Hoje não há contagem de nada,
não há milésimos, não há frações, não há desejos desmesurados.
Hoje não há timer, relógios, regras, desentendimentos, hoje não há obras inacabadas.
Só reagrupamentos, complementos, diáfises e epífises.
Hoje eu posso entrar no tempo do outro, no corpo do outro,
pra me sentir longo e desmedido.
Hoje não há o que tenha havido ontem e que não haverá amanhã,
só que com a singeleza de uma desobsessão. 

Hoje só haverá nossos corpos, entrelaçados aos seus,
se continuando e se estendendo em suas anamneses criativas.
Hoje reinarão nossas linhas juntas às suas e não saberão onde começa uma e termina outra.
Hoje o tempo somos nós próprios, consternados ou famigerados em vós!
Hoje não haverá nunca mais, sendo que nunca poderá ser tão logo quanto eternamente.
Eternamente ontem, antes de ontem, agora pouco.
Agora pouco. Eternamente antes de ante-ontem.
Logo mais.
Quando?
Já, já já!
Nunca?
Sim, agora!
Eternamente agora!
Eternamente logo mais. Eternamente já já!
Sempre hoje. E amanhã?
Amanhã?
Amanhã, eternamente amanhã, e depois e depois de amanhã.
Assim o nunca mais parece nunca existir,
porém se aproxima mais, e mais, e mais...

E os sonhos são dispostos num tempo qualquer,
sem definições de início e fim ou obrigações de respostas.
Se acabam os sonhos com o tempo?
Realizações dependem de alimento substancial?
Se se modificam ao longo da busca qual a razão de serem?

Falo do sonho almejado, impulsionado pela ação de sonhar.
De situação vivida em fantasia enquanto se dorme, ele se transforma em objeto de desejo.
Fator moderador destes sonhos é o tempo,
porém agora já sincronizado a nós, aprendido em nossa perseverança,
já que hoje reinam nossas linhas juntas às suas,
sem saberem sempre onde começa uma e termina outra;
pois hoje o tempo é nosso e cheio de fama.
Hoje não há nunca mais e nunca mais é logo e eterno.

Eternamente logo mais. Eternamente já já!
Sempre hoje.
E amanhã?
Amanhã? Ahh amanhã!
Eternamente amanhã, e depois e depois de amanhã.
Assim o nunca mais jamais existirá se aproximando sempre mais
...e mais....e mais....e mais....ee maaaiiiiisss!

Juliano Hollivier - Texto da performance TIMES´S OVER - Dezembro de 2012.

Assista ao vídeo da performance pelo link http://www.youtube.com/watch?v=4E5J6AeVAAQ




Thursday, November 15, 2012

Benedictus Resignai Nobis

(Play this music to read and feel the poetry!)

Que a sua alma encontre a minha
em todas as vidas na eternidade.
Que as provas apareçam umas sobre as outras
para que possamos juntos compreender
e merecer a luz suprema.
Que tons de ocre entardecido
toquem seu corpo enquanto ainda puderes
vislumbrar anoiteceres cheios de por quês;
e que raios ainda muito estreitos, porém já mornos
do calor do sol, banhem o amanhecer de seus dias,
de suas descobertas, de suas conquistas sempre tão
sábias, de sua compreensão que a cada dia nasce
como um novo bebê germinado no amor.
Que a minha estada nesta e noutras instâncias
sempre semeie em ti dúvidas grandiosamente sanadas,
pesares carinhosamente vencidos, batalhas intelectualmente
abstraídas na sabedoria, no respeito e na evolução de si mesmo,
refletindo em nós a grandeza dos que vos amam.
Que a minha falta seja a sua plenitude
para que sempre nasça em mim o dom da admiração por ti.
Que a sua dádiva preencha em mim o que há de novo,
vazio, necessitado de crescimento e de belo.
Que a sua benção seja para mim o espelho
de mim mesmo sendo você o reflexo de nós dois.
Que o seu choro ou dor sejam para mim
o indício de que posso e devo confortá-lo,
e que o meu choro e a minha dor sejam para ti
o bálsamo de nossos sofrimentos.
Que o silêncio de árvores milenares
permeie nossas fúrias, transformando-as em 
lindos pássaros em voos retornantes.
E que as viagens alcançadas nos melismas de uma voz sublime,
façam de nossas existências sempre
música, poesia e Resignação.
Bendito seja o amor que nos uniu
e que possamos usufruí-lo sempre em vida!

(a meu pai - 14 de Novembro de 2012)
Juliano Hollivier

Desenhos de PAULO von POSER
Textos e Diagramação: Juliano Hollivier 

 



 


  



Sunday, June 17, 2012

BR-116


Súplica

Imagine que a sua espera é a minha,
que você carrega a expectativa que eu carrego,
imagine que esse tempo é só o começo
do que eu quero viver;

agora seja criança, como eu,
e me acompanhe nessa viagem cruel
para que sinta a minha dor e o amor
que eu não tenho e nunca vou ter.

Te levo à margem da rodovia;
Junto comigo descasque a pele fina da ingenuidade.
Ser abusado é fruto de um diabo
que pode viver dentro de cada um de nós.

Ser abusado traumatiza a integridade,
Ser abusado destrói os sonhos e vontades.
Agora deixe de ser criança como eu e me ajude
faça algo de verdade pra conter toda essa crueldade.


Na Beira do Acostamento

Assusto com a buzina do caminhão,
lembro da voz do pai me batendo querendo dinheiro,
já não ligo mais ter o sexo na mão,
só me irrita o cheiro, o gosto dos cinco ou dez reais.

Limpo o cabelo desarrumado pelo vento da estrada,
espirro de novo o perfume que a fumaça preta sempre trás,
desço a alça da blusa e na boléia subo toda enfeitada .

Visão do inferno esse caminhoneiro sujo,
pede coisas que me dão nojo.
Lembro da mãe me xingando, mas fazendo o mesmo.

Até quando assim eu vou,
se de menina ainda me chamam?
se de mulher sequer o seio eu tenho?


Estrada

BR-116
Caminho de vida e morte
no entremeio das lombadas.
Vejo crianças.
Sorte, onde passaste? Porque deixaste
estragos de um maltrato
nosso, meu, seu?

Retalhos de um corpo infantil,
calejado de sexo pago,
abusado por caminhoneiros fáceis.

Vejo crianças. Morte,
serás resgate? Que sobraste
apenas tú para salvar
tamanho relaxo?


Travesti No Próximo Posto

Hoje mexendo num carrinho,
brinquedo quebrado que largaram na estrada,
pensei como seria se soubesse brincar, se pudesse ir à escola?
Eu tenho raiva quando vejo os moleques na rua,
por que nem imaginam que são seus pais que me pagam
pra fazer-lhes gozar.
Antes eu passava pretinho nos pneus desses cretinos
dava um 'puta trato'
pra conseguir ser visto e desejado.
Até que injetei o líquido no peito
e então começaram a me querer,
de menino virei menina.

Corro para o próximo posto,
já que na beira do desgosto não rendeu nada.
Hoje eu só quero é chegar ao Petropen,
conhecer um cara que me compre, que me queira.
Pois alí é luxo, alí é lixo,
e no lixo eu me sobressaio.


Olho de Gato

Kilômetros e mais kilômetros de estrada,
saudades submersas em vontades,
solidão e tesão fundidos no olho de gato
que rasga a vista, reflete a luz,
ilumina o retrato de uma esposa
que não vejo há meses.

Estaciono no Posto Vitória.
no fundo escuro uma silhueta ao vento,
o que faço com essa vontade?
sei do meu erro mas que se foda o correto.
O mesmo olho de gato que separa a estrada
Separa o racional do meu animal.

Paro, abro a porta e ofereço.
Sorriso de canto,
Cheiro de puta com gosto de infância.
Reconheço a semelhança que me intriga.
Aquele olho desenhado...
Ainda me lembro do filho homem
que um dia eu tive!


Ser Tocado

Agora é você quem nos interessa.
Qual a importância de doar atenção
aos que pedem compaixão?
Se imagine criança, se imagine mãe,
se imagine pai ou viajante dessa vida intensa.
Personagens conhecidos ou não,
estórias vividas por pessoas comuns.
Ouvir esses contos nos fecunda,
e nos traz a sensação de consciência!
Se você é tocado pela estória de vida do outro com igualdade,
então se torna pleno de humanidade.
Ouvir, compreender e se emocionar.
São coisas tão necessárias,
porém hoje estão tão esquecidas...
Talvez seja a hora.
Creio ser a sua hora.
A sua hora de realmente fazer algo.

Espera-me

Ei, você que andou tanto.
Acredite, confie que estarei aqui.
Nunca se perca de mim.
Eu sou a esperança.
Ouça meus passos em direção a você.
Sinta minha respiração ritmada à sua.
Já precisou tanto de alguém assim?
Estamos aqui, juntos, caminhando sempre em frente.
Apoiando-se um no outro,
neste dia-a-dia de recomeços.
Sou seu porto, sou seu norte.
Eu sou a esperança,
dentro de ti sou Deus;
fora de ti sou sua força, sua energia.
que te alimenta, te faz crescer, te faz amar.
Mas jamais esqueça
do dia em que te peguei as mãos
e te ensinei a andar.


Alta Estima de Si Mesmo

Esperei até quanto pude mas de repente mudei.
Me apossei de mim mesmo,
Já estava alí, quase leigo.
Quando senti um calor imenso
que me dizia "força, perseverança".
Cheguei a crer que nada podia,
Só via a fraqueza, a falta de recursos.
Achei que não tinha estudo, que não tinha tino,
que não tinha nada.
Até que olhei em volta e percebi o meu erro.
Minha falta de estima por mim mesmo,
Hoje sei que eu posso, hoje sei que eu devo.
O amor por mim depende e em mim se estende.
Agora assim me vejo outro,
me vejo além, me vejo sempre.


Luzes Fluorescentes

Uma luz azul encobre o entorno,
Traz a vontade de agir em prol de alguém.
Essa luz brilha os cantos escuros de nós mesmos.
Ilumina os altos e baixos dessa vida estressante.
Inicia-se na atitude caridosa,
na compaixão e no cuidado com o outro.
Torna-se luz forte e percorre em velocidade intensa
quando em ti há portas abertas.
Esta luz é você próprio,
que pode, que consegue, que atinge.
Você que interfere, que corre atrás,
que faz diferença.
Você que se informa, que protege, que elege.
Somos todos luzes fluorescentes,
temos foco, força, abrangência,
Somos capazes de iluminar o céu, o mar e as gentes.


O Abrir dos Olhos

Um poeta disse um dia que o simples bater de asas de uma borboleta do outro lado do mundo poderia causar um furacão por aqui. Também já disseram que um ato de amor transforma o universo. Somos responsáveis por nossa existência na Terra e cada passo que damos, devemos fazê-lo conscientes. Basta nos observar e ver como gostaríamos que lidassem conosco. Vivemos no mundo interferindo nele. Então por que não seguir daqui, compartilhando oportunidades? Distribuindo carinho, idéias e soluções? Os problemas devem e podem ser solucionados ao invés de apenas "tirados de nossa frente" ou "empurrados para o terreno ao lado". Por que não continuar a viagem transformando-a? Por que não compreender que os atos ilícitos podem se tornar pacíficos se ensinarmos de que forma agir, de que maneira crescer, que opções os seres possuem? O que fazer pra mudar tudo? Comece abrindo os seus olhos...

Juliano Hollivier - São Paulo
(Textos para o espetáculo BR-116, GRUPO SENSUS, criados em prol da erradicação do trabalho infantil na rodovia Régis Bittencourt)


Friday, October 07, 2011

Wednesday, June 22, 2011

Funeral de Imagens

Picture by Juliano Hollivier
Há uma dicotomia no ar.
Vejo o perfil de alguém querido,
sobrepujado pelas paredes de sua casa eterna.
Flores e odores de um lar
guardados nos cantos das lembranças crianças.
Em um funeral de imagens e gostos,
me sinto parado, imóvel, estático.
Vejo lágrimas, suspiros e rostos
marcados pelo desgosto da morte, do nada.
Alguém me pega pelo braço apático
e me puxa para fora da sala.
É quando sou movimentado
pelo vôo de um pássaro que passa.
Vejo então a árvore que o vento leva,
o verde da grama aguada,
e percebo que o movimento acontece
mesmo que eu esteja inerte, irraigado, no nada.
De fora, agora, para dentro morro.
De dentro, e fora, para agora sou levado.


(in memoriam Jamil Abed, meu tio)


Juliano Hollivier - São Paulo
















Pictures by Juliano Hollivier

Tuesday, March 15, 2011

O Polvo Poético

Picture by Juliana Sanches

Hoje saí às ruas, uma vez mais
com um projeto na mente, uma idéia latente::
tocar toda gente que pudesse cruzar, acarinhar
com um pouco de razão, outro tanto de emoção
Como um polvo se aproximando do cais.

Fui devagar, com o coração expectando
algo realmente importante
sentia que poderia acontecer,
que  fizesse toda a diferença, todo o sentido que faltava
naquela proposição de humanidade.

Poéticos tentáculos iriam envolver,
circundar, dizer e destristecer pessoas.
Simpáticos feitores compartilhar, dadivar,
abastecer seres humanos de carinho.

E isso foi feito, como planejado.
Porém o objetivo atingido
deu vazão para uma nova razão,
um real significado para tudo aquilo,
algo que me fez ver o quanto sou importante e pequeno ao mesmo tempo.

Mendigos caídos, crianças se drogando,
Fedores exalando pena, lástimas, crime.
Sujeiras colorindo quadros em preto-e-branco
há muito já pendurados.
Mijos misturados à pedidos
de ajuda, de reconhecimento e de todo carinho
que estávamos oferecendo.

O polvo se deparava com a cidade
em sua total realidade, inexorável.
Eu, feitor, me embriagava num misto de coragem,
piedade, poesia, compaixão e alegria.

Moradores de um gueto não tão miúdo,
normalmente esquecidos e dilatados
por nós mesmos nas ruas sem saída,
se transformaram em público,
em pessoas, em seres passíveis de apreciação,
de envolvimento, de compreensão pelo que dizia.

Os poemas vivenciados por nós polvos,
os tocavam de dentro para fora,
exatamente como se deve ser.
E eram agraciados, revelados sensíveis e humanos como os são!

O projeto, em mim, se transformara
como eles, quando um sorriso de um deles
me pediu que retornasse ali, naquele mesmo lugar,
num dia qualquer depois daquele,
para que eu pudesse ouvir e viver
da poesia feita à mim por ele.

E assim, o Polvo Poético, em mim
passou a ser necessidade, obrigatoriedade,
para que de humanidade eu possa dizer
que seja pleno, alimentado e totalmente presenteado.

Juliano Hollivier - São Paulo
inspirado no projeto Polvo Poético do GRUPO SENSUS (www.gruposensus.blogspot.com)


Pictures by Marcelo Fioravanti

Tuesday, December 14, 2010

Madeira Na Carne

Picture by Lucia Oliveira 

Se aproxime disto, aperte seu maxilar
ranja os dentes, esprema os olhos
e veja de perto do que 'to falando.

Tente encontrar aqui um significado
pra sua falta de vergonha,
pra sua falta de interesse.

Caminhe neste eixo circulando os veios
caia na fenda que corta a foto
de seus ridículos, de minhas loucuras
de nossos desprezos e da só sua ignorância.

Veja nesta garganta do diabo
uma luz que pára e indica o fim,
dá falta de ar,
que entremeia o queixo da prepotência,
do fútil e do desleixo.

Se incomode sim com os nós
dos gogós alheios que estão por aí
e por aqui entre nós mesmos
e faça uma alusão à sua falta de iniciativa
em não mudar sequer o que não entende.

Meta as mãos na sua cara
deixe vergão na pele, na marca
de uma barba que arranha
estapeie sua falta de visão.

Entre nas víceras desta árvore
e a chame de Você.
Com as unhas decalque seu nome
nas cascas, nos toques de ferro
de aço que de inoxidável só existe aqui.

Misture a cor do seu corpo
à cor do meu corpo
e a textura de sua pele
à textura do tronco aqui arrancado.

Não se distancie, nunca.
Ao contrário, vá chegando,
chegando, chegando até ficar cego
de tanto ver e quando sentir seus braços
se transformando em ramos meta-os no cú.

E dentro de si mesmo retorça-os,
vire os dedos, os gomos,
os espinhos deste arbusto arrancado
fazendo deles o seu próprio escárnio,
seu próprio intestino grosso e delgado,
num momento de desculpas por tanto relaxo
consigo mesmo, com todas as coisas
vivas, mortas, desconexas, desiguais.
Descaso com seu corpo e matéria,
casa esta que abriga algo
que não deveria mas está podre.

Olhe pra isso, caralho!
Como pode não enxergar?
Não se vê reluzido alí,
deitado aos meus pés me vendo de baixo?

Tente inverter a visão então,
e verá algo pior ainda:
a madeira entrando na carne,
espremendo os ossos, os órgãos
de pessoas que só sabem
derrubar, destruir e copiar.

Portanto, aproveite esta matança toda
e faça rios de você mesmo.
Assim teremos cada vez menos
coisas a dizer.

Juliano Hollivier - Sao Paulo


Picture by Lucia Oliveira

Thursday, December 09, 2010

Chute Na Cara



Esmago as vontades que nunca dão em nada,
como se eletrocoagulasse as verrugas da cara,
com uma bela pisada no peito,
daquelas que você gira o pé no eixo
e depois dá uma bica no esmo.

Você se doa, planta e colhe,
E quem é que já não cedeu ou quis amar?
Bordei, quis morrer, tolher.
Já quis foder, curar e purificar.
Porra, como eu já quis tanta coisa.

Quando cedi, caí.
Quando amei, caí.
Quando me doei, também caí.
Quando quase colhi, morri.

Por isso a bota
na bunda, no sentimento, na gosma
que tem se formado aqui dentro.
Talvez apenas um momento
de reviravolta, de revolta.

Vejo filas de pessoas iguais
saindo prontas pro nada, moldadas.
Bonecos que não pensam, que não querem,
gentes catalogadas, maltratadas,
gentes encurraladas.

E por mais que eu tente
não consigo ser assim
por que no fundo não o quero ser
e isso machuca, faz sofrer.
Já que nas gotas de minha transparência,
o que também não consigo crer
é na não-correspondência.

Mas o que fazer
diante de tanta auto-flagelação?
Se me sinto pequeno muitas vezes,
Se me sinto fraco, sem ação.

E é nessa hora que o que mais preciso
é do carinho, é de um afago macho,
e se não tenho vou do singelo ato
ao "quebra-barraco", ao ódio nato
de alguém ingrato e de coração liso.

Egoísmo ou sado-masoquismo,
este é um registro da raiva, da inconformação
pela imparcialidade, pelo esmorecimento,
de uma geração vazia, desenraizada,
volúvel e sem comoção.

Então que fique o chute na cara
de quem quiser ser, fazer e ter o nada.

Juliano Hollivier - Sao Paulo