Monday, January 24, 2005

Tudo começa quando o ar parece faltar nos pulmões,
você inspira até não ter forças pra descolar o peito das costas
e ainda assim não é suficiente para arejar a mente,
que se assemelha a um caleidoscópio pelas imagens e dúvidas que surgem.

O gás se expira pela boca e os olhos se voltam para dentro
afim de tentar enxergar o motivo daquela auto-compaixão toda.
E o que se vê é um medo terrível, um medo inexplicável,
que tinge de negro tudo o que tem luz e o que tem vida.

Mais uma vez o ar parece não querer passar pelo caminho
que o leva ao desconhecido, ao poço de por quês.
E então liga-se uma música, não para suprir uma falta ou distrair o caos,
mas sim para aumentar a dor, para musicar a pena de si mesmo.

Caminha-se até a janela e tudo é sincronizado, como numa marcha.
Observa-se pessoas à janelas voltadas para si, a observarem sua solidão.
E quando então explode de dentro um choro que tem em si uma água estranha,
um espelho d´água que mostra o quanto dá medo estar só.

O que é o medo da solidão? É não poder dividir o ar que às vezes falta?
É não ter por quem esperar de noite ou se preocupar na ausência?
Talvez seja o próprio desespero batendo à sua porta, sem pedir pra entrar.
Talvez seja a lembrança da falta que faz alguém pra te amar.

A música incidental dá movimento às cenas,
suspende no ar rarefeito todas as suas incapacidades, todos os seus pontos fracos;
Parece que as janelas lá fora engolem sua sede de companhia
e usa sua incapacidade de ficar sozinho como luzes que se espalham pela cidade afora.

E o medo cede lugar apenas ao conformismo que tenta insistentemente tomar conta,
Mas como o coração não é palco rígido, então amolece e adormece.
O choro se transforma em papéis intermináveis umidecidos de corisa
e a cena quase brega digna de risos frios se acaba com um sono mal dormido.

É o confronto entre razão e emoção, onde o medo da solidão é tão abstrato quanto a merda que deixamos todos os dias num vaso sanitário qualquer!

Juliano Hollivier

Tuesday, January 11, 2005

Pulo do Gato

Quando eu digo que a imersão é foda, boa e dá prazer,
não é ao vento que jogo as palavras, e sim ao borro de um carimbo
chamado poema, pra que se registre o gozo gostoso da felicidade
e sirva de ilustração àqueles que sentem sede de viver.

Eis que a mancha voltava a aparecer
na paleta de cores que dá forma à vida,
quando o bufão da sorte trouxe um outro presente,
que deu nuance mais uma vez à mistura em prazer.

Falo de uma noite planejada e valiosa,
vivida na intensa alegria da novidade, da oportunidade que é nova,
e chama a atenção até do sépio sentimento escondido,
Beijo bom, beijo tempo, beijo horas, muitas horas, beijo o beijo.

Falo de algumas outras noites e também dias
pincelados de tesão e admiração, de encontro consigo mesmo,
sombreados com duas entregas de flores mais o gosto do abraço.
Que abraço, braço que te abraça, gato muito Gato.

Falo de um brilho, de uma certa prata que valoriza o olhar,
que tomou toda a minha calma e fez recíproca minha prova.
De um ponto iluminado sobre a sobrancelha que emoldura o olho gato.
Gato, muito gato, que olha no olho lindo pra se apaixonar.

Falo de uma pinta que brinca aos beijos na ponta do olfato.
De um medo sim, por perder talvez tudo aquilo que ainda nem era nosso.
De uma febre velada e curada pela companhia doce e carinhosa
que sem preocupações sobre o depois galgava alí apenas meu bem-estar.

Eis que a vida tinge outra possibilidade e eu,
que não sou tolo em não aproveitá-la trato de pintar mais um quadro,
com o Gato em tema exposto, e levo-o junto a mim rumo à tentativa de felicidade.
Bem-sucedida a viagem que só fez aumentar o tesão da alegria.

Em telas e mais telas, folhas e carimbos
poemas vão dando forma à busca de mim mesmo,
e esse gato, tema exposto neste quadro, muito Gato
parece estar prestes a dar seu pulo.

Será o pulo do Gato?

Juliano Hollivier

Wednesday, December 29, 2004

Pêndulo

Felicidade, sofrimento
Pleno, vazio
Povoamento, êxodo
Hei de encontrar o equilíbrio?

Lembranças boas, resquícios absurdos
Uma noite interminável, anos de solidão
Tapa na cara, pele intocada
De que vale a certeza se não pudermos aproveitá-la?

Como num pêndulo, estagnação conformada
Sem sofrimento, mas também sem aprendizado, conformismo
Bela manhã acordada com seu amor, tarde de chuva num domingo cheia de expectativas
Um chá para dormir a insônia, cheiro delicioso de café-da-manhã
Não dá pra ser feliz sem experimentações, sem altos e baixos
Que de extremos a felicidade se completa e no equilíbrio a paixão se esvai

Frio no estômago, gelo na barriga, choro pela falta, lágrima sofrida
Empolgação e entrega, realização seguida de decepção
Luz da lua que ilumina duas vontades, sol que cega o coração endurecido
Silêncio doído, cair de maduro, música que embala dois corpos e uma alma
Como dá prazer viver ao máximo, ainda que soframos e nos suicidemos!
Então por quê escolher o medíocre, o ameno, o pequeno?

E nesse pêndulo de emoções engordamos a nossa conta no Aprendizado!

Juliano Hollivier

Tuesday, December 28, 2004

Mágica

Como num lance mágico passei do vazio ao pleno; da dúvida sobre minha capacidade de amar à certeza da minha capacidade de entrega; do superficial e momentâneo medo de tentar à coragem, sempre presente em mim porém às vezes ofuscada pelos cascalhos.

Como num lance mágico passei do estado de decepção em que me encontrava à admiração por uma pessoa em apenas algumas horas de conversa; lembranças ruins de alguém que em nada se identificava comigo davam lugar a momentos vividos com uma pessoa que em tudo havia sintonia; da vontade imensa de encontrar alguém para dividir preferências, filmes, músicas, espetáculos, conteúdos, tesão, à consumação do fato em si.

Como num passe de mágica arranco minha armadura com muita coragem diante de alguém que visivelmente valeria a pena; deixo de lado minha frágil decisão de "não me envolver" e passo a curtir risos, horas intermináveis de conversa, músicas, filmes, tesão, o que não poderia ser chamado de qualquer outra coisa que não fosse envolvimento, delicioso ENVOLVIMENTO!

E como num outro passe de mágica, a quebra, o corte, a cisão de toda a sensação boa. A mostra do final que fora avisado com clareza, sim, de antemão, de que tudo era tão somente mágica, porém não tão sem dor. E nesse embalo de lances e passes de mágica, resta novamente a sensação de despovoamento, de êxodo, de sentimento que se exala, de solidão misturada à rejeição. Assim, em se tratando de um espetáculo da vida, resta-me Aprender, pois quero ficar com alguém que queira ficar comigo, sem medos e com muita coragem, como a minha, capaz de assumir o sentimento se existir.

Agora . . . há algo importante a dizer sobre esta 'Mágica', especificamente: extremamente bela, singular e aparentemente nunca vista, é uma mágica transparente, clara (não em côr) e honesta, porém que envolve e cativa o expectador por sua beleza. O que tem de simples tem de bela, rara. Como é linda essa mágica, que atrai a todos que a vêem, inicialmente pela beleza aparente e sucessivamente pelo conteúdo, tão perfeito quanto. Porém é tão somente uma mágica, manipulada por um intermediador chamado Vida, que se utilizou de sua perfeita criação para alimentar meu olho sedento.

Poderia ser como o movimento contínuo de nuvens, que levadas pelo vento e iluminadas pela lua, nunca têm um fim certo. . . Sim, poderia ser assim como o clarão de uma certa lua que iluminou o caminhar de nuvens em sintonia com outra certa música, só que infelizmente ou, pensando longe, felizmente, tudo não passara de uma mágica manipulada pela vida afim de provar-me mais uma vez que vale a pena viver rumo à felicidade.

Juh

EXPECTAR

"Um vazio tranquilo
se fazia vencedor
em mim como se quisesse compor
algo por sobre minha dor
que se transformara naquilo
que há de ser um dia crescimento!

Preenchimento não tão sereno
sobrepõe o vão ameno
que se encontrava disposto, talvez,
a ser permeado por gosto, e lento,
diante de uma bela possibilidade
que a vida me intercala em viéz.

Expectar, criar, ceder.
Imaturo seria não se permitir esperar
que de tranquilo o vazio não se compõe
e de ameno e sereno não se prova crescer.
Conhecer, divertir, deliciar.
Se encantar!

Madeira rara, e cara,
Egípcio, ou grego onírico
Assim é bela minha possibilidade
que se intercala no viéz de rara
com-pa-ti-bi-li-da-de!

Não há como não ceder, criar, expectar...
diante de um vazio sobreposto por um imenso gosto
de ebano dado, enviado, como presente belo.

Conhecer, criar, esperar....
Gerar e decepcionar, ser decepcionado.
Ameno e leve, o vazio que antes reinava?
Não, intenso e fundo porém disfarçado!

Então, como que num vértice de emoção
o preencher cede espaço ao expurgo,
ameno, sereno e lento, mas turvo, que
de belo, raro e caro o que reina é a sensação de
in-ca-pa-ci-da-de!

O mesmo vazio tranquilo
se conforma com a constatação
da minha falta de preparo, ainda,
em ouvir um não!"

Juliano Hollivier

Tuesday, December 07, 2004

O recado que espantou . . .

Algo a adiantar sobre mim é que sou uma pessoa que vive de uma forma muito intensa meus sentimentos, com amigos, familiares e principalmente meus romances. Sem julgar isso como qualidade ou defeito, trata-se de uma característica da minha personalidade, e mesmo sofrendo com algumas consequências, acredito que é dessa intensidade que tiramos o maior proveito de tudo, creio que é só com ela que aprendemos algo. Não sei ser superficial, não sei levar minha vida e meus amores à "flôr do teclado", não consigo esperar que me mandem uma mensagem, ou que me enviem um botão de rosa, sabe, não sei não criar expectativas boas sobre alguém, ou deixar que me liguem pra marcar um encontro. Não me sinto bem na sala de espera, compreende? sinto necessidade de entrar, entrar fundo em alguma coisa, em alguém. Quero sim eu enviar a flôr e receber um telefonema de "Muito obrigado", ou esperar avidamente por um convite de alguém pra fazer coisa alguma juntos. Quero sim enviar cartas dizendo que amei a noite e os beijos que passamos e demos e aguardar sim um "Vamos repetir?"... Não consigo aceitar que é cedo pra viver uma super felicidade, ou que a entrega a uma paixão deve ser inversamente proporcional ao tempo discorrido desde o 1º encontro....o que é o Tempo senão o espaço físico onde podemos pôr em prática nossos sonhos? pq fazer dele uma referência sã, como que para nunca esquecermos de que podemos estar fugindo dessa "sanidade", ou fazer dele um espelho para mostrar o quanto estamos sendo loucos....NÃO! Esta é a minha forma vertical de viver as emoções, meus sentimentos....seja subindo ou caindo quero experimentar tudo, quero ser feliz, quero sofrer, quero tudo aquilo que depende de mim conseguir!

Juliano Hollivier

Monday, October 18, 2004

Testemunho sobre um Amigo Especial

Apesar do "Mar Morto" parecer nos distanciar, e não falo aqui do íngreme metro linear considerando que moramos em bairros diferentes da mesma cidade, considero este rapaz (vulgo gatochorro = nome a princípio sem sentido que um dia inventamos) um Amigo Especial. Passamos tempos e fases em comum, expectativas e lutas típicas dos que buscam a felicidade através dos valores passados pela família e também pelos adquiridos pela própria experiência. Muita alegria e alguns 'dissabores' compuseram nossa amizade, que por intermitentes interrupções naturais, ou melhor dizendo, correrias do dia-a-dia, desencontros, tempo escasso, cansaço, diferentes escolhas, enfim, creio estar adormecida, porém tão sensível a qualquer som para despertar, como sempre foi. Já ficamos tempos sem nos falarmos e em determinados momentos especiais um simples telefonema parecia estreitar anos de distância, acredito isso não ter mudado. Muitas reflexões sobre a existência humana, sobre a busca de nossos objetivos, regados a vinhos preferencialmente brancos-demi seco muito gelados; descobertas e incursões musicais, de Rachmaninnoff a Iron Maiden, passando por algumas horas de Toquinho num violão e duas vozes...alguns momentos de sofrimento motivados pela falta de um ex-amor meu, cuja falta foi suprida pela sua tão especial companhia....lembro-me de uma música que fiz pra uma garota, a mesma, e pedi que ele, este Amigo tão especial, cantasse pra ela, pois essa é mais uma de suas qualidades: uma bela voz. Espero crer sempre na amizade que marcou nossos corações, como quando corríamos a praça feito crianças crescidas, numa brincadeira de "Duro-Mole" ou "Mamãe-da-rua", em plena madrugada numa certa "Concha Acústica", nós e mais outros queridos amigos, todos crianças crescidas. Espero crer sempre que esta sensação infantil, tão desprovida de obrigações adultas e outros sentimentos decorrentes da fase séria da vida em que nos encontramos hoje, nunca se apague de nossas lembranças, pois ela é maravilhosa. A você, grande Amigo especial, que hoje dorme um sono que nos distancia, escrevo-te o testemunho da admiração. Após alguns anos de muita música, de estudo, muito trabalho, obstáculos vencidos, conquistas, tenho pensado e sentido sua falta, queria muito poder dividir contigo minhas não tão mais novas alegrias e tristezas, meus não tão mais novos ideais, meus novos trabalhos e objetivos, meus velhos livros. Tenho feito muita coisa que tenho certeza adoraria acompanhar, apreciar e opinar; tenho criado muitas coisas que adoraria saber sua opnião, escrito textos e cenas teatrais, encenado papéis e vivido personagens, escutado muita música nova e bela, ah! voltei até a pintar (pra decorar minha nova casa), aos poucos estou conseguindo tudo aquilo que almejávamos naquelas noites, regadas a muito vinho, (ria-se) preferencialmente brancos-demi seco e muito, mas muito gelados! Queria muito dividir contigo os frutos de uma colheita que ajudastes tão belamente a semear: Registro aqui meu testemunho de admiração pelo que fomos outrora e pelo que podemos ser adiante: grandes amigos! Um forte abraço e até dia desses...

Juh

Tuesday, June 29, 2004

Esboço

Queridos amigos.

É com imensa satisfação que coloco aqui o esboço de meu 2º texto teatral*. A idéia é levantar opniões, sugestões e críticas, positivas ou não, claro! Portanto, àqueles que tiverem interesse, por favor, leiam, mergulhem, e depois comentem.
Inicialmente é uma proposta de um teatro experimental e investigativo. Escrevi pensando em um ponto de partida para o estudo da interpretação, expressão corporal-vocal, do movimento psico-imaginativo, enfim, para o estudo de todas as formas de expressão artística.
Muito longe de uma pretensão profissional, no real sentido da palavra, trata-se de uma linha a ser acompanhada no decorrer da investigação teatral; um início, sem maiores pretensões, onde é permitido e necessária toda e qualquer mudança que se faça jus.
Forma-se com este objetivo um grupo de artistas, atores ou não, que têm como meta principal a busca do "fazer artístico", dividindo e aprendendo com o outro! Segue então abaixo com o título "Manicômio ou Cárcere?". Boa leitura...

*O primeiro fiz com 14 anos, e é um tanto quanto 'ruim'... quem sabe uma revisão daqui há alguns anos melhore!

Monday, June 28, 2004

...para desfrutarmos!

"Sim, prefiro o risco do manicômio ao risco do cárcere. Prefiro acreditar demais - sem fanatismo ou intolerância - a ter pouca fé. Se tenho que errar, quero errar achando que esta é uma grande vida, misteriosa, complicada, maravilhosa e não cair no erro oposto de vê-la menor e mais simples do que a minha imaginação." (J.Priestley - O Homem e o Tempo)

Wednesday, May 05, 2004

Broches ou Peitos? reflexões pós Stocklos

Frase ouvida no espetáculo "Olhos Recém Nascidos" - de Denise Stocklos:

" (. . .) O broche no lixo e o peito no palco!"


um pouco mais fundo:

O broche
Pode ser o medo q as pessoas têm de encarar a realidade, de partir pra luta e se ferir, de mudar algo ruim que muitas vezes nem percebe em suas vidas. O broche pode representar a máscara que vestimos pra esconder nossa feiura, nossa incapacidade, nosso "conformismo" (olha ele aí de novo), esse broche enfeita, tira a atenção, esconde o que tem por trás, ilude, envaidece. É a mídia, as peças de teatro-comerciais e ruins, os programas de televisão péssimos, é o Faustão, o Gugu, aquele lixo escrotal e pegajoso "Pânico na T.V." que fazem sucesso em cima da idiotisse alheia, e o que é pior, premeditadamente ruim (foi criado para ser ruim, as pessoas sabem disso e assistem, se divertem, riem das ignorâncias alheias); são as novelas ruins, as músicas pré-moldadas, "Lacraia", "Segura o Tcham", quase todos esses grupos de Axé, de Pagode e de todo tipo de música e dança que só alimentam a pobreza cultural e espiritual. O broche são todos os "Big Brothers" da Rede Globo (e do mundo), todas as "Casa dos Artistas", é o "Fama", é o Silvio Santos, são os políticos e seus programas políticos, que nos chamam todos os dias às vésperas das eleições de OTÁRIOS, IDIOTAS E BURROS e as pessoas nem percebem. O broche são todos os preconceitos que escondem e justificam a incapacidade que o ser-humano tem de viver em sociedade (hilário isso).
O broche pode ser um chapéu de madame, pode ser uma calça de marca, dois peitos grandes DE SILICONE, uma lipo, aplicações de lipostabil (que nunca funcionam e todos sabem disso, mas fazem), pode ser a 'echarpe' que esconde a chupada adúltera, pode ser o boné que esconde a calvície. O broche é o cárcere do cabelo liso, da Escova diária, o broche são os produtos de alisamento, chapinha, "bobe-lise", todos os métodos de alisamento, japoneses, franceses, ingleses, BRASILEIROS.....(gente como pode??? parem e pensem......e japonês lá precisa fazer alisamento??? como é que sabem como fazê-lo a ponto de inventarem um método de alisamento....PUTA QUE O PARIU), o broche é o próprio cabelo liso (muitos rss.....), e as mulheres nem percebem isso, se encarceram dentro de uma moda ditada por pessoas que querem igualar as pessoas, tirar a individualidade de cada um, monopolizar os ganhos de um empobrecimento em massa. Imaginem só: todas as mulheres do mundo de cabelo liso e pintados de loiro (me desculpe as loiras naturais).... para a burrice e ignorância é só um passo!

O peito
Puta, o peito é sim a coragem, a coragem no palco, a cara pra bater, a nudez proposital, não só pra causar o tesão gratúito, mas sim pra enxergarmos como viemos ao mundo: livres de adereços, de uniformes, de preconceitos, nus. O peito é individualidade que respeita a outra individualidade, é a diversidade que compõe o mundo, é a aceitação consciente das diferenças. O peito é a arte, e a arte é o que está no palco com a intenção de elevar as idiossincrasias do homem, palco da vida livre de regras ditadas sem sentido, massificadoras. Esse peito é o mesmo que uma mãe se jogando em frente ao filho para levar por ele um tiro qualquer; é o ex-alcoolatra, é o ex-drogado, é o ex-desempregado. É também o gay assumido, os pais falando orgulhosos da filha que vai casar, com outra mulher!; é o cara que 'pede as contas' do emprego, que luta pela real igualdade de direitos, por melhores salários, por melhores condições de vida. É o grupo de teatro que questiona a moral inquestionada da sociedade, que mostra cenas de sexo dentro de uma Igreja, que cospe na cara de um ditador qqr, que mostra a pedofilia, a prostituição, a pobreza, os massacres, os cânceres sociais. O peito é aquele que vai contra suas formas já intrínsicas e arraigadas e tenta mudar pra melhor, deixa de usar suas linguagens costumeiras para dizer de forma diferente algo que lhe seja importante, e não só pelo simples motivo de ser diferente, mas sim pelo fato de que experimentando novas linguagens estará aprendendo também, e talvez atingindo mais pessoas. Peito no palco é viver enfrentando nossos medos, nem sempre vencendo-os claro, mas sempre tentando a vitória sobre eles. Peito no palco é ter a coragem de ir à uma terapia, se enxergar como num espelho, e descobrir o quão somos pequenos, feios, mas tbem descobrir que isso tudo é só uma questão de iniciativa, a iniciativa de MUDAR, é descobrirmos que somos somente nós que podemos mudar a nós mesmos. Peito no palco é foder de verdade no espaço cênico, com ou sem viagra, gozar e sair de cena com o não-único intúito de chocar, mas sim de causar reflexões na platéia, pra que saiam dali ao menos se perguntando: "Precisava daquilo?", ou "Será que não é isso o que fazemos com nossas vidas?". Esse peito é o mesmo peito da atriz do Teatro da Vertigem, que mostra os próprios seios numa personagem bíblica; é própria Denise Stocklos em cena, que separada de sua costumeira linguagem corporal, tenta com maravilhoso sucesso, manifestar suas reflexões de artista. É o mesmo peito de um músico que sobe o morro de uma favela pra tentar através da música humanizar aqueles "reféns do broche" e qdo volta da favela vê que somos todos "reféns do broche", mas mesmo assim não desiste! É também o peito de alguém que tenta na justiça seu direito de se casar com alguém do mesmo sexo, ou daquele que tenta promulgar leis que condenam o preconceito homossexual, ou leis que apoiem as uniões do mesmo tipo. O mesmo peito de um heterossexual que tem amigos viados e se orgulha deles. O mesmo peito de uma empresa que contrata negros e paga-os salários iguais ou melhores que os que pagam aos brancos. É o próprio "Madame Satã"! Esse peito no palco é a vida mostrada como ela é, sem julgamentos e repleto de admiração e res-PEITO!

E aí, vamos ser "broches" ou "peitos"???

Juliano Hollivier

Wednesday, November 14, 2001

Inocência Perdida



É em momentos como êste que percebemos o quanto perdemos de nossa inocência. Aquela em que, quando criança, mentimos aos pais para alguma artimanha aprontarmos e nem pensamos nas conseqüências. Aquela que usamos para conseguir um brinquedo novo que está na moda, sem ao menos nos preocuparmos com o prêço e no esforço que os pais terão de ter para comprá-lo. Aquela inocência que pinta o rosto de um menino, abrindo nele um sorriso lindo que projeta no peito de seu pai a alegria de viver e de gerado lhe ter. Uma inocência tão providencial capaz de 'safar-nos' de qualquer 'molecagem'.

É realmente em momentos como êste que nos damos conta do quão longe estamos de toda esta beleza ingênua e infantil, e passamos a valorizar cada segundo vivido na infância e super-valorizar o papel dos pais em nossas vidas. No crescer diário que a vida nos põe, nos desviamos muitas vezes daquilo que gostariam que fôssemos: a "bola" perde lugar ao "instrumento musical", a "arte" ocupa o espaço de um possível "médico" ou "advogado"; e na fase adulta, esquecemos às vezes de agradecer à Deus pelos maravilhosos pais que Ele nos deu; o que me deixa com um sentimento de remorso tremendo, mas, é em momentos como êste que podemos reparar algumas de nossas falhas.

Pai, aproveito o momento para dizer-lhe o quanto foi, é e sempre será importante para a minha eterna busca pela Felicidade. Aproveito o momento para lembrar-lhe de minha inocência, que se perdeu sim mas que cedeu lugar a uma idiossincrasia tão bela quanto: a gratidão.
Gratidão por ter tido você como mestre-mentor, como guia, como professor, como amigo, como "general" às vezes, como modelo, como Pai. Gratidão por estar sim num caminho certo, crescendo e aprendendo a cada dia que passa, e isso graças à Você!

Acredito sim que é possível resgatarmos aquela inocência da infância, mas de uma maneira diferente, talvez, e usufruirmos apenas o que há de bom dela, já que agora temos o dissernimento do que é bom e ruim. Poderíamos sim resgatar o sorriso daquele rosto, e principalmente a alegria que explode no peito.

É em momentos como êste que podemos não simplesmente dizer um "Feliz Aniversário" mas sim "Muito obrigado por existir, pois EU TE AMO, E MUITO". E é em momentos como êste que deixamos este sentimento transpor todas as barreiras físicas e vir à tona para repousar nos corações de quem AMAMOS.
Misturam-se então conhecimentos, experiências, sentimentos e vivência à INOCÊNCIA PERDIDA.

"Feliz Aniversário, Muito Obrigado por Existir, pois EU TE AMO, E MUITO"

Juh

Tuesday, February 22, 2000

Entrega Total

Poderia alguém se fechar num mundo extremamente único e pessoal a tal ponto que todo o belo e inefável VIVER se tornasse mero acontecimento?
Pólux, jovem peregrino no difícil caminho da busca pela Felicidade, se vê num ponto de sua vida em que à sua frente estão as consequências da imparcialidade, da não-entrega total, do vazio causado pela incalculável falta de apego aos sentimentos que o rodeiam. Às suas costas vertem tempos passados e vividos sofrivelmente, que, em seu mais íntimo e escondido saber, passam por ‘causa’ das citadas ‘consequências’. Claro que numa imersão nostálgica como essa, tudo se torna peculiar e todos culminam em seu próprio umbigo. Porém, valhamo-nos da maior característica que nos difere de um animal: a racionalidade; e nos permitamos cometer, uma vez ao menos, idiossincrasias como a de Pólux.
Aturdido em sua apreciação "egocêntrica", como se estivesse assistindo a um filme, se vê no lugar de Dante, ao ser conduzido do Inferno ao Paraíso sem que os tormentos dos homens já mortos lhe tocassem ou interferissem em sua caminhada. Se vê como uma das impossíveis gravuras de M.C.Escher, onde nunca encontramos início ou fim, sentido ou razão; como imagens desconectas e intrinsicamente ligadas umas às outras. Como se um lampejo de ‘sobriedade’ lhe resgatasse e o trouxesse a uma linha imaginária de igual imparcialidade, nosso peregrino tem a oportunidade de escolher que caminho tomar.

"… sabe quando você descobre que ama alguém, sente aquela falta de ar no peito, suas mãos tremem ao pensar que poderiam estar tocando seu corpo, quando o coração bate bestamente numa desritmia? … quando percebe que aquilo é tão importante quanto o ar que respira? ... sabe quando, depois de tudo isso ou ao mesmo tempo que isso, descobre que só você é que ama, e toda a força que sai de dentro deste sentimento é equalizada pela indiferênça da pessoa amada? … algum tempo se passa, penados momentos, para que a primeira desilusão se misture aos acontecimentos do dia-a-dia e passe desapercebida por nós mesmos."

Questionamentos vão tingindo em frações de segundos a mente de Pólux, que, como se num só pé sobre aquela linha indizível, tivesse de decidir sobre seu futuro desconsiderando um passado tão presente, sobre como ser tudo aquilo que desejava ser: uma pessoa Feliz. Em citação especial à "busca pela felicidade", interessante se torna observar algumas considerações: o homem medieval quando travava lutas com o cavaleiro oponente, era para que ao findar dos duelos recebesse como prêmio aquilo que lhe fizesse feliz. Les troubadours, aristocráticos poetas-músicos do sul da França, criavam suas canções com intúito de expressar os amores que sofriam. A felicidade para o homem renascentista era poder usufruir do devoto interesse ao saber e à cultura, explorando os mistérios de suas emoções e se percebendo como alguém num mundo que existe ao seu redor, raciocinando e questionando para que chegassem a um local feliz e comum. Já ao homem barroco, a felicidade estava no desígnio total ao Senhor. Surge o Romantismo após o Classicismo, para cravar a mais perfeita e inigualável identidade do ser-humano, a personalidade; e deixar resquícios até os dias de hoje, de que não somos nada senão frutos de nossa eterna busca pela felicidade. Ainda com movimentos extremamente importantes como o Modernismo, o Impressionismo, Expressionismo associamos todas as vertentes da cultura humanista a um único e grandioso propósito: to be "Happy"!

"... sabe quando estamos andando pelas ruas, sem a mínima pretenção de encontrar alguém? … quando já tendo ‘esquecido’ do quanto doeu um amor não correspondido, não se atenta para novos desafios? … sabe quando você está tão despreocupado em viver que nem percebe um novo amor chegando, de mansinho e diabolicamente tímido? … aos poucos ele vai se instalando do lado esquerdo do seu peito, e vai consumindo as vias vitais. Porém, diferentemente da primeira vez, como que para se camuflar e lhe confundir ainda mais, ele é vivido em alguns momentos de aguda felicidade … lhe dando a incerta certeza de que você está quase lá! … na Isla de la Felicità! ... saboreia com a nova pessoa amada momentos dignos de agradecimentos Divinos, pois estão te mostrando que desta vez não é só você quem ama, mas sim que é também amado ... sabe quando tudo isso está tão presente no seu dia-a-dia, e você começa a perceber que a tal felicidade não era tão difícil de se alcançar assim? ... e que a "mola propulsora" do relacionamento está cada vez mais forte e verdadeira? ... sabe quando, talvez por único desfrute do ‘destino’, um acontecimento incomum e inesperado vem lhe tirar novamente a pessoa que percebeu um dia amar ? ... e sem chances de resgate ou luta, já que ‘coisas da vida acontecem’?"

É momento de introspecção no cérebro-coração de Pólux. Seus arraigados exemplos de vida tocam-lhe a face com a delicadeza de um celta rude. É o início da aridez sentimental a que levou nosso jovem peregrino à curva-declive a que se encontra. Tal qual Dante, mais uma vez, ao chegar à porta do inferno juntamente com seu guia Virgílio, se assombra ao ler as inscrições sobre seu portal:
"VAI-SE POR MIM À CIDADE DOLENTE,
VAI-SE POR MIM À SEMPITERNA DOR,
VAI-SE POR MIM ENTRE A PERDIDA GENTE.
MOVEU JUSTIÇA O MEU ALTO FEITOR,
FEZ-ME A DIVINA POTESTADE,
MAIS O SUPREMO SABER E O PRIMO AMOR.
ANTES DE MIM NÃO FOI CRIADO MAIS NADA
SENÃO ETERNO, E ETERNA EU DURO.
DEIXAI TODA ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS."


Sendo depois "confortado" pelo seu mestre:
"Livra-te desse medo circunspecto;
aqui toda tibiez esteja morta;
que chegando ora estamos ao conspecto
das tristes gentes das quais já te disse
que têm perdido o bem do intelecto".


Das alusões dantescas ao dissecar pormenorizado dos sentimentos de nosso personagem. Se vê percorrendo caminhos que só poderão levá-lo a onde está, e rapidamente começa a aceitar sua atual situação. Absorto em questões de cunho antropológico, Pólux se define como resultado de mais uma "prova de vida":

"... o que faria se algo assim lhe acontecesse? ... sairia procurando por pessoas disponíveis em qualquer esquina? ... comeria a primeira buceta que encontrasse, ou então daria para o primeiro que lhe quisesse comer? ... rindo ou chorando, é claro que não! Certo ou errado a primeira atitude é se afastar dos sentimentos que fodem com a vida da gente. É "fechar o cerco", se distanciar dos "humanos", descer ao mais baixo que um réptil, se igualar a uma nojenta barata! ... e não digam que é exagero pois a dor é desta vez incrivelmente maior do que a primeira, pois tudo foi experimentado, vivido, nada foi platônico! ... é tudo mesmo uma prova, lhe colocada diante do nariz para que caia se machucando, te ferindo bem fundo; uma porra de prova de vida."

Os segundos se transformam em anos e o tempo e o vento se encarregam de esmiuçar os fragmentos e inculcá-los no vértico horizonte do peregrino. Inúmeras vezes, em sua caminhada, cruza outras pessoas que julga estarem numa situação ao menos parecida com a sua. Frases feitas lhe são jogadas aos ouvidos, e nunca se deixando desviar do objetivo proposto na última introspecção, o de se vetar aos reais sentidos da vida.
Um tropeço lhe faz bater com a cabeça numa pedra, e ao acordar da vertigem avista um ser que a princípio julgava ser um animal qualquer, mas observando com aguçada curiosidade percebe que trata-se de um plebeu excepcional, sem os membros inferiores. Êste lhe aborda recitando as seguintes palavras: " – Caro amigo, vejo o inferno em seus olhos, sinto o vazio em seu coração! Não me contes, por favor, motivo algum para tanta desfacelação. Vejo também em seu corpo tanta saúde para obstáculos atravessar, vejo em seu fronte tanto saber para aprimorar e ampliar seus conhecimentos! Conte-me sim, por favor, um único motivo para ignorar tais bênçãos!". Nosso jovem peregrino delibera então com a criatura recém-encontrada questionando-lhe a razão de não se deixar cair diante de tantas impossibilidades, sendo mais uma vez acuado com resposta tão sábia: " – Lembre-se que as maiores possibilidades são aquelas que nós mesmos criamos, dentro de nossos limites. E jamais se esqueça de que estamos vivos para aprendermos com os tropeços que a vida nos dá!".
Cenas de um passado remoto projetam-se nos olhos de Pólux, cada segundo lhe traz de volta à linha imaginária; na derrocada de sua decisão. Fechar-se a um mundo de oportunidades de crescimento, privar-se da emoção do Amar novamente, mesmo que por alguns minutos, ou momentos; impossibilitar-se de perder o fôlego mais uma vez por alguém, de tremer ao se imaginar com alguém, de descompassar as batitas de seu coração, aguardando que elas acompanhem o bater de um outro coração. Tudo por ingênuo medo, com alguma razão sem dúvida, mas por puro e ingênuo medo da entrega total.
Pólux desequilibra-se em seu único pé apoiado na imaginária linha e num lance rápido se vê enclausurado no fel de sua amargura medrosa. Aquilo o apavora imensamente, e o tamanho deste medo suplanta a todos os outros, dando-lhe forças para se apoiar nas duas pernas e imergir em mais uma de suas introspecções, porém desta vez utiliza-se de sua bela voz dizendo a todos os que podem ouví-lo:

"... sabe quando você está no chão, caído, sem forças pra se levantar, e olha pra uma formiguinha, tão minúscula carregando um pedaço enorme de graveto? ... sabe quando você acorda pra vida com um simples fato desses?
Então, sabe quando podemos ver, depois de muitas amostras, que realmente estamos aqui para aprendermos a viver e não simplesmente para ‘viver’? ... É, isso é realmente possível! ... quando nos permitimos errar, errar, errar, e mais inúmeras vezes errar para que em algum momento possamos aprender e nunca mais esquecer! ... sabe quando percebemos que isto só é possível se nos permitimos entrar de corpo e alma, sem medos e ‘neuras’ numa situação qualquer, numa relação qualquer? ... sabe quando nos entregamos totalmente a alguém que, pelo menos naquele momento, vale toda a pena do mundo, e isso nos traz minutos (para alguns) e décadas (para muitos) de verdadeira Felicidade cúmplice? ... veja, se forem minutos vividos tenho certeza de que serão os melhores minutos vividos (assim como foram os que vivi com aquele outro amor), os minutos que realmente estive inteiramente presente, dividindo-os com alguém que naquele tempo com certeza me mereceu, pois me fez a pessoa mais Feliz. Se forem décadas então, não precisamos nem falar, não é? ... sabe quando você começa a achar que toda sua nostalgia valeu pra alguma coisa? ... tipo quando você reconhece que precisava passar por aquilo e tirou da situação a melhor lição possível? ... Pois é, isso acontece e aconteceu comigo. Hoje sei que sou capaz sim de me entregar totalmente a alguém, sem medo ou preocupações, pois hoje e sempre, o que quero (e queria desde o começo) é Ser Feliz! Sejam segundos, minutos ou décadas!"


*Citações de "A Divina Comédia - Inferno" de Dante Alighieri.
P.S.> A linguagem propositalmente não-coloquial utilizada pelo narrador, chata e difícil, é para aceitarmos que a Vida talvez não seja para ser compreendida e sim apenas vivida!

Juliano Hollivier