Sunday, June 17, 2012

BR-116


Súplica

Imagine que a sua espera é a minha,
que você carrega a expectativa que eu carrego,
imagine que esse tempo é só o começo
do que eu quero viver;

agora seja criança, como eu,
e me acompanhe nessa viagem cruel
para que sinta a minha dor e o amor
que eu não tenho e nunca vou ter.

Te levo à margem da rodovia;
Junto comigo descasque a pele fina da ingenuidade.
Ser abusado é fruto de um diabo
que pode viver dentro de cada um de nós.

Ser abusado traumatiza a integridade,
Ser abusado destrói os sonhos e vontades.
Agora deixe de ser criança como eu e me ajude
faça algo de verdade pra conter toda essa crueldade.


Na Beira do Acostamento

Assusto com a buzina do caminhão,
lembro da voz do pai me batendo querendo dinheiro,
já não ligo mais ter o sexo na mão,
só me irrita o cheiro, o gosto dos cinco ou dez reais.

Limpo o cabelo desarrumado pelo vento da estrada,
espirro de novo o perfume que a fumaça preta sempre trás,
desço a alça da blusa e na boléia subo toda enfeitada .

Visão do inferno esse caminhoneiro sujo,
pede coisas que me dão nojo.
Lembro da mãe me xingando, mas fazendo o mesmo.

Até quando assim eu vou,
se de menina ainda me chamam?
se de mulher sequer o seio eu tenho?


Estrada

BR-116
Caminho de vida e morte
no entremeio das lombadas.
Vejo crianças.
Sorte, onde passaste? Porque deixaste
estragos de um maltrato
nosso, meu, seu?

Retalhos de um corpo infantil,
calejado de sexo pago,
abusado por caminhoneiros fáceis.

Vejo crianças. Morte,
serás resgate? Que sobraste
apenas tú para salvar
tamanho relaxo?


Travesti No Próximo Posto

Hoje mexendo num carrinho,
brinquedo quebrado que largaram na estrada,
pensei como seria se soubesse brincar, se pudesse ir à escola?
Eu tenho raiva quando vejo os moleques na rua,
por que nem imaginam que são seus pais que me pagam
pra fazer-lhes gozar.
Antes eu passava pretinho nos pneus desses cretinos
dava um 'puta trato'
pra conseguir ser visto e desejado.
Até que injetei o líquido no peito
e então começaram a me querer,
de menino virei menina.

Corro para o próximo posto,
já que na beira do desgosto não rendeu nada.
Hoje eu só quero é chegar ao Petropen,
conhecer um cara que me compre, que me queira.
Pois alí é luxo, alí é lixo,
e no lixo eu me sobressaio.


Olho de Gato

Kilômetros e mais kilômetros de estrada,
saudades submersas em vontades,
solidão e tesão fundidos no olho de gato
que rasga a vista, reflete a luz,
ilumina o retrato de uma esposa
que não vejo há meses.

Estaciono no Posto Vitória.
no fundo escuro uma silhueta ao vento,
o que faço com essa vontade?
sei do meu erro mas que se foda o correto.
O mesmo olho de gato que separa a estrada
Separa o racional do meu animal.

Paro, abro a porta e ofereço.
Sorriso de canto,
Cheiro de puta com gosto de infância.
Reconheço a semelhança que me intriga.
Aquele olho desenhado...
Ainda me lembro do filho homem
que um dia eu tive!


Ser Tocado

Agora é você quem nos interessa.
Qual a importância de doar atenção
aos que pedem compaixão?
Se imagine criança, se imagine mãe,
se imagine pai ou viajante dessa vida intensa.
Personagens conhecidos ou não,
estórias vividas por pessoas comuns.
Ouvir esses contos nos fecunda,
e nos traz a sensação de consciência!
Se você é tocado pela estória de vida do outro com igualdade,
então se torna pleno de humanidade.
Ouvir, compreender e se emocionar.
São coisas tão necessárias,
porém hoje estão tão esquecidas...
Talvez seja a hora.
Creio ser a sua hora.
A sua hora de realmente fazer algo.

Espera-me

Ei, você que andou tanto.
Acredite, confie que estarei aqui.
Nunca se perca de mim.
Eu sou a esperança.
Ouça meus passos em direção a você.
Sinta minha respiração ritmada à sua.
Já precisou tanto de alguém assim?
Estamos aqui, juntos, caminhando sempre em frente.
Apoiando-se um no outro,
neste dia-a-dia de recomeços.
Sou seu porto, sou seu norte.
Eu sou a esperança,
dentro de ti sou Deus;
fora de ti sou sua força, sua energia.
que te alimenta, te faz crescer, te faz amar.
Mas jamais esqueça
do dia em que te peguei as mãos
e te ensinei a andar.


Alta Estima de Si Mesmo

Esperei até quanto pude mas de repente mudei.
Me apossei de mim mesmo,
Já estava alí, quase leigo.
Quando senti um calor imenso
que me dizia "força, perseverança".
Cheguei a crer que nada podia,
Só via a fraqueza, a falta de recursos.
Achei que não tinha estudo, que não tinha tino,
que não tinha nada.
Até que olhei em volta e percebi o meu erro.
Minha falta de estima por mim mesmo,
Hoje sei que eu posso, hoje sei que eu devo.
O amor por mim depende e em mim se estende.
Agora assim me vejo outro,
me vejo além, me vejo sempre.


Luzes Fluorescentes

Uma luz azul encobre o entorno,
Traz a vontade de agir em prol de alguém.
Essa luz brilha os cantos escuros de nós mesmos.
Ilumina os altos e baixos dessa vida estressante.
Inicia-se na atitude caridosa,
na compaixão e no cuidado com o outro.
Torna-se luz forte e percorre em velocidade intensa
quando em ti há portas abertas.
Esta luz é você próprio,
que pode, que consegue, que atinge.
Você que interfere, que corre atrás,
que faz diferença.
Você que se informa, que protege, que elege.
Somos todos luzes fluorescentes,
temos foco, força, abrangência,
Somos capazes de iluminar o céu, o mar e as gentes.


O Abrir dos Olhos

Um poeta disse um dia que o simples bater de asas de uma borboleta do outro lado do mundo poderia causar um furacão por aqui. Também já disseram que um ato de amor transforma o universo. Somos responsáveis por nossa existência na Terra e cada passo que damos, devemos fazê-lo conscientes. Basta nos observar e ver como gostaríamos que lidassem conosco. Vivemos no mundo interferindo nele. Então por que não seguir daqui, compartilhando oportunidades? Distribuindo carinho, idéias e soluções? Os problemas devem e podem ser solucionados ao invés de apenas "tirados de nossa frente" ou "empurrados para o terreno ao lado". Por que não continuar a viagem transformando-a? Por que não compreender que os atos ilícitos podem se tornar pacíficos se ensinarmos de que forma agir, de que maneira crescer, que opções os seres possuem? O que fazer pra mudar tudo? Comece abrindo os seus olhos...

Juliano Hollivier - São Paulo
(Textos para o espetáculo BR-116, GRUPO SENSUS, criados em prol da erradicação do trabalho infantil na rodovia Régis Bittencourt)


Wednesday, June 22, 2011

Funeral de Imagens

Picture by Juliano Hollivier
Há uma dicotomia no ar.
Vejo o perfil de alguém querido,
sobrepujado pelas paredes de sua casa eterna.
Flores e odores de um lar
guardados nos cantos das lembranças crianças.
Em um funeral de imagens e gostos,
me sinto parado, imóvel, estático.
Vejo lágrimas, suspiros e rostos
marcados pelo desgosto da morte, do nada.
Alguém me pega pelo braço apático
e me puxa para fora da sala.
É quando sou movimentado
pelo vôo de um pássaro que passa.
Vejo então a árvore que o vento leva,
o verde da grama aguada,
e percebo que o movimento acontece
mesmo que eu esteja inerte, irraigado, no nada.
De fora, agora, para dentro morro.
De dentro, e fora, para agora sou levado.


(in memoriam Jamil Abed, meu tio)


Juliano Hollivier - São Paulo
















Pictures by Juliano Hollivier

Tuesday, March 15, 2011

O Polvo Poético

Picture by Juliana Sanches

Hoje saí às ruas, uma vez mais
com um projeto na mente, uma idéia latente::
tocar toda gente que pudesse cruzar, acarinhar
com um pouco de razão, outro tanto de emoção
Como um polvo se aproximando do cais.

Fui devagar, com o coração expectando
algo realmente importante
sentia que poderia acontecer,
que  fizesse toda a diferença, todo o sentido que faltava
naquela proposição de humanidade.

Poéticos tentáculos iriam envolver,
circundar, dizer e destristecer pessoas.
Simpáticos feitores compartilhar, dadivar,
abastecer seres humanos de carinho.

E isso foi feito, como planejado.
Porém o objetivo atingido
deu vazão para uma nova razão,
um real significado para tudo aquilo,
algo que me fez ver o quanto sou importante e pequeno ao mesmo tempo.

Mendigos caídos, crianças se drogando,
Fedores exalando pena, lástimas, crime.
Sujeiras colorindo quadros em preto-e-branco
há muito já pendurados.
Mijos misturados à pedidos
de ajuda, de reconhecimento e de todo carinho
que estávamos oferecendo.

O polvo se deparava com a cidade
em sua total realidade, inexorável.
Eu, feitor, me embriagava num misto de coragem,
piedade, poesia, compaixão e alegria.

Moradores de um gueto não tão miúdo,
normalmente esquecidos e dilatados
por nós mesmos nas ruas sem saída,
se transformaram em público,
em pessoas, em seres passíveis de apreciação,
de envolvimento, de compreensão pelo que dizia.

Os poemas vivenciados por nós polvos,
os tocavam de dentro para fora,
exatamente como se deve ser.
E eram agraciados, revelados sensíveis e humanos como os são!

O projeto, em mim, se transformara
como eles, quando um sorriso de um deles
me pediu que retornasse ali, naquele mesmo lugar,
num dia qualquer depois daquele,
para que eu pudesse ouvir e viver
da poesia feita à mim por ele.

E assim, o Polvo Poético, em mim
passou a ser necessidade, obrigatoriedade,
para que de humanidade eu possa dizer
que seja pleno, alimentado e totalmente presenteado.

Juliano Hollivier - São Paulo
inspirado no projeto Polvo Poético do GRUPO SENSUS (www.gruposensus.blogspot.com)


Pictures by Marcelo Fioravanti

Tuesday, December 14, 2010

Madeira Na Carne

Picture by Lucia Oliveira 

Se aproxime disto, aperte seu maxilar
ranja os dentes, esprema os olhos
e veja de perto do que 'to falando.

Tente encontrar aqui um significado
pra sua falta de vergonha,
pra sua falta de interesse.

Caminhe neste eixo circulando os veios
caia na fenda que corta a foto
de seus ridículos, de minhas loucuras
de nossos desprezos e da só sua ignorância.

Veja nesta garganta do diabo
uma luz que pára e indica o fim,
dá falta de ar,
que entremeia o queixo da prepotência,
do fútil e do desleixo.

Se incomode sim com os nós
dos gogós alheios que estão por aí
e por aqui entre nós mesmos
e faça uma alusão à sua falta de iniciativa
em não mudar sequer o que não entende.

Meta as mãos na sua cara
deixe vergão na pele, na marca
de uma barba que arranha
estapeie sua falta de visão.

Entre nas víceras desta árvore
e a chame de Você.
Com as unhas decalque seu nome
nas cascas, nos toques de ferro
de aço que de inoxidável só existe aqui.

Misture a cor do seu corpo
à cor do meu corpo
e a textura de sua pele
à textura do tronco aqui arrancado.

Não se distancie, nunca.
Ao contrário, vá chegando,
chegando, chegando até ficar cego
de tanto ver e quando sentir seus braços
se transformando em ramos meta-os no cú.

E dentro de si mesmo retorça-os,
vire os dedos, os gomos,
os espinhos deste arbusto arrancado
fazendo deles o seu próprio escárnio,
seu próprio intestino grosso e delgado,
num momento de desculpas por tanto relaxo
consigo mesmo, com todas as coisas
vivas, mortas, desconexas, desiguais.
Descaso com seu corpo e matéria,
casa esta que abriga algo
que não deveria mas está podre.

Olhe pra isso, caralho!
Como pode não enxergar?
Não se vê reluzido alí,
deitado aos meus pés me vendo de baixo?

Tente inverter a visão então,
e verá algo pior ainda:
a madeira entrando na carne,
espremendo os ossos, os órgãos
de pessoas que só sabem
derrubar, destruir e copiar.

Portanto, aproveite esta matança toda
e faça rios de você mesmo.
Assim teremos cada vez menos
coisas a dizer.

Juliano Hollivier - Sao Paulo


Picture by Lucia Oliveira

Thursday, December 09, 2010

Chute Na Cara



Esmago as vontades que nunca dão em nada,
como se eletrocoagulasse as verrugas da cara,
com uma bela pisada no peito,
daquelas que você gira o pé no eixo
e depois dá uma bica no esmo.

Você se doa, planta e colhe,
E quem é que já não cedeu ou quis amar?
Bordei, quis morrer, tolher.
Já quis foder, curar e purificar.
Porra, como eu já quis tanta coisa.

Quando cedi, caí.
Quando amei, caí.
Quando me doei, também caí.
Quando quase colhi, morri.

Por isso a bota
na bunda, no sentimento, na gosma
que tem se formado aqui dentro.
Talvez apenas um momento
de reviravolta, de revolta.

Vejo filas de pessoas iguais
saindo prontas pro nada, moldadas.
Bonecos que não pensam, que não querem,
gentes catalogadas, maltratadas,
gentes encurraladas.

E por mais que eu tente
não consigo ser assim
por que no fundo não o quero ser
e isso machuca, faz sofrer.
Já que nas gotas de minha transparência,
o que também não consigo crer
é na não-correspondência.

Mas o que fazer
diante de tanta auto-flagelação?
Se me sinto pequeno muitas vezes,
Se me sinto fraco, sem ação.

E é nessa hora que o que mais preciso
é do carinho, é de um afago macho,
e se não tenho vou do singelo ato
ao "quebra-barraco", ao ódio nato
de alguém ingrato e de coração liso.

Egoísmo ou sado-masoquismo,
este é um registro da raiva, da inconformação
pela imparcialidade, pelo esmorecimento,
de uma geração vazia, desenraizada,
volúvel e sem comoção.

Então que fique o chute na cara
de quem quiser ser, fazer e ter o nada.

Juliano Hollivier - Sao Paulo













Friday, December 03, 2010

Anjo de Fardas


Honra, Nação, Evolução.
Fome e desespero aflige os coitados
num Haiti conflitado pela ocupação,
e ostentado pelo título de pobreza.

Do lado de cá civis não tão comuns
se doam para ajudar numa missão,
de paz, de busca, de realização.

Deixam casa, conforto, familia,
como todos em guerra,
protegidos e justificados em seu posto
como se o trabalho justificasse o risco
e não influenciasse a escolha.

Meu desinteresse, até então na questão.
Quando conheço um destes operários da ordem
e vejo o quanto ou mais humano pode ser
o ofício, a mim desconhecido, deste anjo guardião.

Acompanho sua dor, sua solidão,
vejo daqui do computador seu terror,
sinto em mim a saudade que sente em si,
como se segurasse minha mão
e pedisse apoio, pedisse zêlo, pedisse amor.

Amor aos homens, mulheres e crianças
que lá vê morrerem, que lá vê sofrerem,
Amor aos próximos que pedem por socorro,
por clemência, por alianças,
e por um ato que seja de conforto.

Converso com o anjo de fardas
e descubro a cada minuto de bate-papo
cada vez um pouco mais de humanidade,
de solidariedade, de conquista de evolução.

O vi chorar pela mãe e pelo irmão menor,
pedindo a Deus que os Deixasse bem,
Até quando me deu a notícia maior
que me fez descrer no horror
e compreender a grandeza de seu ato.

Condecorado foi c´uma medalha,
reconhecido pela maior organização do mundo
como uma pessoa de glória, de luz, de muito valor.

A ONU reconhece o herói 
num brasileiro íntegro, corajoso e bravo,
de apenas 24 anos de idade
porém com séculos de luz e hombridade.

Meu amigo é este herói
como todos somos nós  sempre,
porém com tanto merecimento do mundo
que jamais poderá ser comparado.
Por que ninguém jamais se doou tão fundo.

Sou fã, admirador e zelador
de sua alegria, de seu bem-estar, de suas conquistas.
Sou companheiro e parceiro nas lutas que fizer
em busca de algo sempre maior,
doando-lhe meu ombro, meus ouvidos e minhas mãos.

Hoje ví seu sorriso orgulhoso
posando ao lado da medalha.
A alegria e a transparência nele
me deixou assim, de joelhos
diante de tanta comoção, de tanta visualização
do quanto somos aqui pequenos,
e sois aí imenso servindo a Deus
numa fronteira do caos grandioso
que só origina a paz e a ordem 
atravez de heróis como você. 

Juliano Hollivier - Sao Paulo

Homenagem a Élcio Queiroz, enviado brasileiro à Missão de Paz da ONU no Haiti.

Saturday, November 20, 2010

O Gozo Sem Capa


Sexo como droga
que vai pelas narinas dos mais perdidos
como se amortecesse algo latente
e acalmasse o espírito e o corpo.

Inquietação comum essa,
em nós homens gays ou não.
Corrompe qualquer valor,
destrói qualquer juízo,
nos leva ao delírio e ao vazio
direto e em  poucos segundos.

O gozo é facil,
intermináveis são as opções,
se vê paus grandes, pequenos,
se escolhe bucetas ou cús anelados,
como se num sex shop entrássemos
e pedíssemos à atendente virtual
aquilo que nos desse o maior prazer.

Se pode escolher dar ou comer,
onde e como meter,
se pode bater, chupar, machucar, dominar
ou então um, dois, tres ou mais
para matar a vontade de querer ser, ter.

Pula-se de um sexo para outro,
não há envolvimento emocional,
não há troca que não seja de esperma,
de tesão, de doenças, vírus e bactérias,
não há tempo, cobiça, zelo,
troca-se de parceiro assim como
se ignora qualquer sentimento substancial.

Num lugar onde todos somos iguais
o difícil é acusar quem é o culpado
mas o incômodo depois da porra expelida
é mais comum do que o próprio ato acusado.

Há os delírios, os desejos escondidos,
humanos, normalmente calados
como a leitada sem capa, um mijo na cara,
podre, sexual, nojento pra uns
necessário pra outros.

Há muito neste mundo de
sexoanusquímico-dependentes.
E isso nos faz querer saber,
sempre depois da ultima gozada,
quando será a próxima
para não termos que fitar
a nós mesmos na próxima amorosa enrascada,
que normalmente nos faz abrutecer.

Terrível dizer isso mas 
gozar hoje é tão bom quanto matar
medos, desesperos, desconhecidos em nós.
Seguem todos juntos com a borracha lixo abaixo,
isso quando as usa.

Não há doenças que amedrontem,
não há gravidez indesejada que impeça,
não há obrigação que inculque,
nem frescuras que não possam ser realizadas.

Pois numa fábrica de modelos
cujo produto vendido somos nós mesmos,
onde vemos pernas penduradas,
braços, abdomens, mãos e pés
secando sua tinta num varal,
cabeças decaptadas,
bundas, peitos e seios
sendo montados um a um,
o que resta disso tudo 
é claro que só pode ser o supérfluo,
o vazio, o desapego e o banal.

A cocaína dos homens hoje,
além do próprio pó,
está no corpo do outro homem
e é percebida num olhar,
num riso, numa paquera peculiar,
num torcer de pescoço,
num nick de sala de bate-papo
e seu prazer é o nosso próprio nó.
Nos resta compreender se isto leva a algum lugar.

Juliano Hollivier - Sao Paulo











Monday, November 08, 2010

Tesouras Arradas


Tem coisas que realmente não podemos fazer nada,
Não que realmente nada há o que fazer com essas coisas,
mas é que parecem ser de uma providência Divina
para pôr nós homens em nossos devidos lugares

Coisas como paixões atribuladas,
como insucessos rasgados,
como o fascínio pelo belo que não pode ser seu,
coisas como tesouras amarradas.

No sobe e desce dessa vida
cruzo mais uma vez com o homem
o ser humano mais humano
que pode vestir minha felicidade completa.

Ele tem estilo, tem beleza,
ele tem amor, ele tem valor,
nele há brilho, nele há sucesso, força repleta.
Dele sai encanto e a ele Deus presenteou seu manto
tecido à mão por anjos estilistas como ele.

Passou comigo algumas poucas noites e alguns poucos dias
costurando a trama de um sonho prestes a se realizar,
bordando os beijos, cerzindo os flertes,
recortando as vontades e modelando sua bondade
num molde de felicidade que desestruturou meus anseios.
Pois estava eu num momento "fechado pra balanço".
Rindo e desfrutando daquele devaneio
me pego apaixonado e compartilho meu estado.

Então depois da verdade positiva desvelada,
na sinceridade da paixão que poderia sim evoluir
no amor pré-estabelecido como que numa outra vida,
nos encontros de coisas parecidas entre dois sagitários,
devo ter despertado seus horrores e seus medos,
seus ex-amores e derrotas,
conflitos ainda não resolvidos
ou desenhos ainda não desenhados.

Pois a um passo da entrega de si,
da consumação de um fato,
da prova final de um vestido premiado,
ele fechou os buracos, puxou os zíperes,
costurou as entradas, apertou as amarras,
abotoou os botões e tampou as casas por onde eu pudesse entrar.

Não era ilusão a correspondência que senti,
vi em seus olhos, peguei em sua mão que tremia quando me abraçava
e percebi seu tom quando me disse que o resgatava
da descrença no amor.

Eu dizia ele fazia,
eu me expressava com palavras ele se expressava com ações.
Eu pensava, ele agia.
Numa noite juntos dormida
descobriu-se a coincidência até das pernas descobertas.

Não, definitivamente não estou ficando louco, ainda.
Então o que foi tudo aquilo?
Tudo isso o que é?
Por que é que o medo tem de prevalecer?
Por que é que as fases também não podem se coincidir?

Sinto como se tivesse experimentado o melhor casaco,
o mais caro terno, a mais bela gravata e
sem mais nem menos acordasse novamente nú
na escola de um sonho de criança.

Quero apenas uma chance de provar
o quanto posso, o quanto quero, o quanto creio,
compartilhar a conquista de uma felicidade alinhavada juntos,
de um sucesso sobreposto pela coragem,
não só pelo tesão de seu corpo
mas primordialmente pelo tesão de sua alma.

Quero apenas uma chance para conquistar seu olhar
que é todo azul do mar...
e fazer se apaixonar por alguém que já se apaixonou,
alguém que já sabe amar.
Peço que desamarre as tesouras para que então
possamos tecer juntos a roupa da vitória.

Juliano Hollivier - Sao Paulo